Quinze bilhões de dólares. O número é grande o suficiente para anestesiar o leitor antes que ele faça a pergunta óbvia: quem está realmente pagando essa conta? O Google anunciou nesta semana o que chama de "maior investimento de sua história no estado do Missouri", um complexo de data center e infraestrutura energética que será erguido nos arredores de Kansas City. Os comunicados oficiais vêm decorados com sorrisos do governador, promessas de empregos e o vocabulário ensaiado da filantropia tecnológica. Falta apenas alguém ter a coragem de ler as letras miúdas do acordo.

Porque toda vez que uma corporação trilionária resolve "investir" num estado americano de classe média, há um detalhe que os press releases evitam com elegância suíça: a lista de isenções fiscais, abatimentos de energia, descontos em ICMS local, créditos de infraestrutura e contrapartidas do tesouro estadual que tornam o tal investimento, na prática, uma transferência de renda do contribuinte para o acionista. Missouri tem um histórico bem documentado de oferecer pacotes generosos para atrair big tech, e o Google sabe disso melhor do que ninguém. Não se constrói data center onde a conta de luz é cara e o imposto é cheio. Constrói-se onde o governador está disposto a sentar na mesa e abrir mão da receita pública em troca de uma foto.

Olha, o teatro é antigo. Vem desde os tempos em que reis medievais ofereciam monopólios comerciais a mercadores favorecidos em troca de empréstimos à coroa. Mudaram os figurinos, a essência é a mesma: o poder político vende privilégio, o poder econômico compra privilégio, e o cidadão pagador de impostos descobre depois, pelas migalhas que sobram no orçamento de escolas e estradas, que ele financiou a festa sem ter sido convidado. Chamam isso de "parceria público-privada", "polo de inovação", "atração de investimentos estratégicos". O nome técnico, fora do vocabulário corporativo, é capitalismo de compadrio.

Some-se a isso o detalhe energético, que ninguém quer discutir em voz alta. Um data center desse porte consome eletricidade equivalente a uma cidade média. Em estados onde o sistema elétrico já opera no limite, isso significa duas coisas: ou o consumidor residencial paga mais caro pela tarifa, ou o estado subsidia o consumo industrial via tarifa diferenciada, o que dá no mesmo, só com a contabilidade disfarçada. Quer dizer, a conta de luz da dona de casa em Springfield vai ajudar a treinar o próximo modelo de inteligência artificial que vai, ironicamente, automatizar o emprego do marido dela. É a beleza do arranjo: privatizam-se os lucros, socializam-se os custos, e ainda vendem o pacote como progresso.

Os defensores do esquema sempre apelam ao argumento dos empregos. Quinze bilhões geram empregos, dizem. Geram, sim, alguns milhares durante a construção e algumas centenas na operação permanente, a maioria deles altamente especializados e trazidos de fora do estado. Mas a pergunta que ninguém faz é: quantos empregos foram destruídos invisivelmente pelo dinheiro que saiu do bolso do contribuinte e do pequeno empresário do Missouri para subsidiar a operação? Cada dólar que o estado deixa de arrecadar do Google é um dólar que ele cobra do padeiro, do mecânico, do contador autônomo. Esses empregos, os que não foram criados porque o capital deles foi sugado pela máquina fiscal, não dão foto bonita no Twitter do governador.

Me diz uma coisa: se o investimento fosse genuinamente lucrativo nas condições normais de mercado, por que precisaria de incentivo? A resposta incomoda porque é simples. Não precisaria. O incentivo existe precisamente porque o cálculo, sem o subsídio, não fecharia, ou não fecharia tão gordo. E aí entra a regra de ouro do jogo: a corporação não vai para onde o mercado é mais eficiente, vai para onde o político é mais generoso com o dinheiro alheio. Enquanto o cidadão comum aplaude o anúncio como se fosse vitória coletiva, o acionista em Mountain View brinda com champanhe a mais um round de privatização dos ganhos e socialização dos custos. E o Missouri, coitado, continua acreditando que ganhou alguma coisa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.