O Google acaba de lançar um aplicativo nativo do Gemini para Mac, e a principal funcionalidade é exatamente o que você imagina quando uma empresa que fatura centenas de bilhões com publicidade direcionada resolve instalar um olho permanente no seu computador: o usuário pode compartilhar qualquer coisa que esteja na tela, incluindo arquivos locais, para que a inteligência artificial "ajude" com o que ele estiver fazendo naquele momento. Repare na palavra "qualquer coisa". Não é um documento específico que você escolhe enviar. É a tela inteira. É o contrato que você estava revisando, a conversa que estava tendo, a planilha com dados financeiros, o rascunho que ainda nem publicou. Tudo oferecido de bandeja para os servidores de uma corporação cuja razão de existir é transformar informação pessoal em receita publicitária.
Existe uma velha lição da história das conquistas territoriais que se aplica perfeitamente aqui: nenhum império jamais pediu permissão para se expandir dizendo "queremos dominar vocês". O discurso sempre foi de civilização, de ajuda, de progresso. O missionário chegava antes do soldado. O Google entendeu isso como ninguém. Primeiro veio o buscador gratuito, depois o e-mail gratuito, depois o navegador gratuito, depois o sistema operacional do celular gratuito. Cada camada de gratuidade era uma camada a mais de acesso à sua vida. O Gemini nativo no Mac é apenas o capítulo mais recente dessa expansão metódica, que agora salta do navegador para o sistema operacional, dos dados que você digita voluntariamente para tudo o que aparece na sua tela sem que você sequer pense a respeito.
O que impressiona não é a audácia técnica, porque a tecnologia em si não tem nada de revolucionário. Assistentes que leem tela existem há anos. O que impressiona é a naturalidade com que a coisa é apresentada, como se fosse um favor. "Compartilhe sua tela com o Gemini para obter ajuda com o que você está olhando no momento", diz o comunicado, com a mesma casualidade de quem oferece um café. Ninguém para dois segundos para perguntar o óbvio: ajuda para quem, exatamente? Porque quando você entrega a um modelo de linguagem treinado por uma empresa de publicidade o acesso visual ao seu ambiente de trabalho, a "ajuda" que você recebe é o subproduto. O produto primário é o treinamento do modelo, a indexação dos seus hábitos, a cartografia completa da sua vida digital. A conveniência é real, não nego. Mas conveniência sem soberania sobre os próprios dados é servidão confortável.
Há quem diga que isso é paranoia, que os termos de uso protegem o usuário, que os dados são anonimizados. São as mesmas pessoas que acreditaram quando disseram que o microfone do celular não escutava conversas, que o histórico de localização era opcional de verdade, que os dados médicos pesquisados no buscador não influenciavam anúncios. A cada escândalo revelado, a resposta institucional é sempre a mesma: "foi um erro", "já corrigimos", "levamos a privacidade muito a sério". E duas semanas depois ninguém mais fala no assunto, porque a próxima funcionalidade brilhante já foi anunciada e todo mundo corre para instalar. O ciclo se repete com a previsibilidade de um relógio suíço, e ninguém aprende porque a dopamina da novidade é mais forte que a prudência.
O mais irônico é que isso acontece no Mac, o computador de uma empresa que construiu toda a sua identidade de marca sobre a promessa de privacidade. Aqueles comerciais bonitos dizendo que "o que acontece no seu iPhone fica no seu iPhone" agora convivem com um aplicativo de terceiros que literalmente vê tudo o que acontece na sua tela. Mas essa é uma contradição que já deixou de surpreender. Quando o dinheiro de publicidade digital é grande o suficiente, até as catedrais da privacidade abrem as portas. O Brasil, que deveria estar formando engenheiros capazes de construir alternativas soberanas a essa infraestrutura de vigilância, prefere aplaudir de pé cada novo lançamento como se fosse presente de Natal. Não é. É fatura. E a conta, como sempre, vem depois.
Com informações da TechCrunch. A análise e opinião são do O Algoz.