Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago, declarou que a inflação americana está "indo na direção errada". A confissão tem o peso de quem incendeia a casa e depois reclama do calor. Quer dizer, o sujeito senta numa cadeira que decide o preço do dinheiro do mundo inteiro, integra o comitê que multiplicou a base monetária em proporções obscenas durante a pandemia, e agora, com a cara mais lavada possível, descobre que os preços resolveram não obedecer ao roteiro previsto pelos modelos econométricos do banco central. É de uma desfaçatez que beira o cômico, se não fosse trágica para o assalariado americano que vê o salário derretendo enquanto Wall Street brinda mais uma reunião do FOMC.
Olha, a inflação nunca foi mistério para quem se dispôs a pensar fora do consenso oficial. Quando um governo gasta trilhões que não tem, financiados por um banco central que cria moeda do nada, o resultado é matemático, não opinativo. Não existe essa coisa de "inflação de oferta", "inflação de cadeia produtiva", "inflação climática", "inflação geopolítica" ou qualquer outra desculpa narrativa que a imprensa de Washington produz às toneladas para proteger seus amigos do Beltway. Inflação é, sempre foi e sempre será fenômeno monetário. Você dobra a oferta de dinheiro e finge que isso não tem consequência, a consequência aparece, e quando aparece, os mesmos sujeitos que causaram o problema sobem ao púlpito para explicar com gravidade de cirurgião que o caso é "complexo".
Me diz uma coisa, quem ganha com inflação alta? Não é o trabalhador, esse paga primeiro e paga mais. Não é o aposentado, esse tem a poupança incinerada em câmera lenta. Não é o pequeno empresário, esse vê o custo de reposição do estoque subir antes da receita chegar. Quem ganha é o governo, que recolhe imposto sobre valores nominais inflados enquanto paga dívida em moeda derretida. Ganham os bancos que tomam dinheiro barato do Fed e emprestam caro ao público. Ganham os grandes devedores corporativos com acesso ao balcão da Reserva Federal. A inflação é, em última instância, um imposto que o Congresso não precisa votar, cobrado dos mais pobres e transferido aos mais conectados. Siga o dinheiro, e a "direção errada" da qual Goolsbee fala revela a direção certa do bolso de alguém.
O mais grotesco da declaração é a postura de espectador. Goolsbee fala como se a inflação fosse um furacão atlântico, fenômeno meteorológico imprevisível, alheio à vontade humana. Não é. Inflação tem nome, sobrenome, CPF e endereço. Inflação tem ata de reunião, tem voto registrado, tem assinatura em programa de compra de ativos. Os mesmos diretores que agora franzem a testa diante do índice de preços foram os que aplaudiram em pé cada rodada de afrouxamento quantitativo, cada corte emergencial, cada janela de liquidez aberta para salvar amigos de Manhattan da própria incompetência. A pretensão de que um comitê de doze pessoas, por mais titulado que seja, consegue calibrar o preço do dinheiro para uma economia de trezentos e trinta milhões de pessoas é a vaidade intelectual mais cara da história moderna.
E enquanto o Fed admite, em conta-gotas e com eufemismos, que perdeu o controle do que jurou controlar, a casta política americana segue debatendo pacotes trilionários, garantias bancárias, socorros setoriais e generosidades eleitoreiras como se a impressora monetária fosse uma fonte mítica de prosperidade. Cada dólar gasto pelo governo é um dólar tirado de alguém, hoje pelo imposto, amanhã pela dívida, depois de amanhã pela inflação. Não existe almoço grátis, nunca existiu, e os economistas que prometeram que dessa vez seria diferente agora aparecem na CNBC para explicar que a culpa é da Rússia, da China, do clima, dos consumidores gastando demais, dos trabalhadores pedindo aumento, de qualquer coisa, menos do banco central que comanda. É a velha rotina: privatizar o lucro do dinheiro fácil, socializar o prejuízo da conta inflacionária.
A "direção errada" que Goolsbee enxerga não é desvio acidental, é o destino programado de qualquer experimento monetário desonesto. O Fed pode subir juro, pode descer juro, pode falar grave, pode falar manso, pode até contratar mais doutores em econometria, mas enquanto o sistema operar com moeda fiduciária ilimitada, banco central onipotente e Congresso gastador, a inflação seguirá comparecendo pontualmente para cobrar a fatura. O americano que ainda acredita que esse arranjo serve ao cidadão comum precisa rever as premissas. O sistema funciona, sim, perfeitamente, só que para outras pessoas.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.