A notícia chega com aquele verniz de modernidade que costuma cegar repórter de caderno de economia: a Gorilla Technology, empresa listada na Nasdaq com músculo de relações públicas maior que o de engenharia, acaba de embolsar um contrato de US$ 2,8 bilhões para construir infraestrutura de inteligência artificial na Índia. Soberania digital, dizem. Hub regional de IA, repetem. Posicionamento estratégico no tabuleiro asiático, sustentam os comunicados oficiais. Olha, quando um governo gasta o equivalente ao PIB anual de um país pequeno em "infraestrutura estratégica", a primeira pergunta honesta não é técnica, é contábil: quem decidiu, quem recebe, e por que justamente esse fornecedor.

A Índia não é nenhuma república de bananas, mas o roteiro é universal. Empresa de capital aberto, com receita anual historicamente bem menor que o valor do contrato fechado, dobra de tamanho da noite para o dia porque um burocrata em algum ministério decidiu que era ela, e não outra, a parceira ideal para o destino tecnológico de 1,4 bilhão de pessoas. As ações dispararam, claro. Acionistas comemoram. Lobistas faturam. E o cidadão indiano, que paga imposto sobre cada saco de arroz e cada litro de combustível, descobre que está financiando data centers cuja utilidade real ninguém auditou, cujos contratos ninguém leu, e cujo retorno ninguém demonstrou.

Aqui mora a falácia eterna do investimento estatal em alta tecnologia: o governo escolhe vencedores antes de existir competição. Se a inteligência artificial é tão promissora quanto pregam, capital privado financia. Se não é, capital privado foge. Quando o Estado entra com cheque bilionário, está sinalizando que o mercado privado, com toda sua inteligência distribuída e seus incentivos afiados, recusou o negócio nas condições oferecidas. O contribuinte então vira o investidor de última instância, o trouxa que entra quando o profissional saiu. E ainda paga juros sobre a própria humilhação, porque dinheiro de governo é dinheiro emprestado contra futuro alheio.

O que se vê é fácil: prédios novos, manchetes elogiosas, ministros cortando fitas, executivos sorrindo em foto oficial com bandeira nacional ao fundo. O que não se vê é o capital privado que foi tributado para custear a festa, as startups que não nasceram porque o crédito ficou caro, os hospitais que não foram construídos, as estradas rurais que continuam de terra batida. Cada rúpia gasta em "infraestrutura soberana de IA" é uma rúpia que deixou de circular onde o cidadão indiano comum, aquele que ninguém entrevista, decidiria gastar. A escolha foi feita por ele, sem ele, contra ele, em nome dele.

A história tecnológica está cheia desses elefantes brancos com chip dentro. Computadores nacionais dos anos oitenta que ninguém usou. Sistemas operacionais soberanos que ninguém adotou. Nuvens estatais que viraram galpões caros e ociosos. O padrão se repete porque o erro é estrutural, não conjuntural: nenhum comitê governamental, por mais doutorado que acumule em sua composição, sabe o que o mercado de IA vai exigir daqui a três anos. O conhecimento relevante está disperso entre milhões de programadores, empreendedores, usuários e investidores ajustando suas apostas em tempo real. Centralizar essa decisão num contrato de quase três bilhões com fornecedor único é apostar a poupança nacional num único cavalo numa corrida que ainda não largou.

E tem o detalhe que ninguém comenta em voz alta: soberania digital, no léxico contemporâneo, virou senha para protecionismo travestido de patriotismo. Quem defende soberania digital geralmente defende reserva de mercado para o amigo certo, com o contrato certo, na hora certa. O servidor não vota, mas quem o vende para o governo costuma financiar campanha. A Índia descobrirá, como tantos antes dela, que a soberania que se compra com dinheiro público costuma render menos soberania e mais dependência, agora com fatura recorrente de manutenção. Quando a próxima geração de tecnologia chegar, o data center de hoje será sucata cara, e alguém precisará explicar ao parlamento por que o futuro envelheceu tão rápido.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.