Saiu Stephen Miran do Federal Reserve, e saiu, claro, com discurso de despedida moldado em mármore, falando em "avanços históricos" na desregulamentação financeira, em "modernização" do arcabouço, em "alívio" para os bancos. Quer dizer, o sujeito passou meses dentro do santuário mais bem trancado do capitalismo ocidental, o lugar de onde se decide quanto vale o dinheiro que está no seu bolso, e sai dizendo que a grande vitória foi tirar algumas regrinhas de cima dos bancos. Olha, a essa altura do campeonato, já deveríamos estar todos imunizados contra esse teatro, mas a plateia segue aplaudindo.
A primeira pergunta que ninguém na imprensa econômica fez, porque ninguém na imprensa econômica é pago para fazer, é a seguinte: desregulamentação de quê, exatamente? Porque o coração do problema americano não é o compliance bancário, não é o relatório trimestral, não é o stress test. O coração do problema é uma instituição que tem o monopólio legal de fabricar moeda do nada, fixar a taxa de juros por decreto e socorrer amigos quando a roleta gira para o lado errado. Tirar três páginas do manual de regulação de um banco regional enquanto isso continua em pé é como abrir a janela do quarto do paciente terminal e chamar de tratamento.
Me diz uma coisa, quem ganha com a desregulamentação financeira do jeito que ela é praticada hoje? Não é o pequeno poupador, que continua vendo seu dinheiro derreter num ritmo que o índice oficial de inflação se recusa a confessar. Não é o empresário médio, que toma crédito caro porque o juro é decidido em comitê fechado por gente que nunca encontrou uma folha de pagamento na vida. Quem ganha são os mesmos de sempre, os bancos grandes demais para quebrar, os fundos com acesso preferencial à janela de redesconto, a rede de consultoria, lobby e cargos rotativos que transforma cada saída do Fed em ponte de ouro para Wall Street. Siga o dinheiro e a fantasia da reforma técnica vira o que sempre foi, redistribuição de privilégio entre amigos.
O detalhe que torna a despedida ainda mais constrangedora é o timing. Renuncia-se celebrando desregulação enquanto a dívida pública americana caminha para casa dos trinta e seis trilhões, enquanto o balanço do próprio Fed continua inchado pelos socorros de duas crises atrás, enquanto a inflação acumulada da última década comeu mais poder de compra do que qualquer crash da bolsa. O barulho regulatório é a cortina de fumaça perfeita para que ninguém olhe para a parte que importa, que é a expansão crônica de crédito artificial responsável por inflar bolha atrás de bolha, cada uma maior que a anterior, cada estouro pago por quem nunca foi convidado para a festa.
E aqui mora a graça do despotismo moderno, ele não chega de bota e fuzil, chega de gravata e PowerPoint. Chega prometendo modernizar, simplificar, dar eficiência, falando a língua suave do tecnocrata que se apresenta como engenheiro neutro de um sistema natural. Só que não há nada de natural num cartel monetário sustentado por lei, e não há nada de neutro num burocrata que decide o preço do dinheiro para trezentos milhões de pessoas. A retórica da desregulação serve justamente para fingir que estamos numa economia de mercado, quando o ativo mais fundamental de qualquer economia, a moeda, está nacionalizado desde 1913 e ninguém pode tocar no assunto sem ser tratado como excêntrico.
A renúncia de Miran, no fim das contas, é um pequeno episódio de um enredo conhecido. Sai um, entra outro, troca-se o nome na placa, mantêm-se os incentivos, preserva-se a máquina. O cidadão americano continua trabalhando para pagar juros sobre dinheiro que não existia ontem, e o brasileiro, espectador atento dessa novela, deveria aproveitar para olhar no espelho e perguntar quantos Mirans temos por aqui, batendo no peito por reformas cosméticas enquanto o Banco Central segue decidindo, em sala fechada, o tamanho do seu salário real no mês que vem. Desregular o periférico e blindar o central é o truque mais antigo do livro, e ainda funciona porque a maioria das pessoas prefere o conforto da fantasia ao desconforto da conta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.