Dias atrás, o secretário-executivo da Fazenda apareceu em público para dizer, com cara de funeral, que o governo brasileiro está preocupado com eventuais novas tarifas americanas sobre produtos nacionais. Preocupado. A palavra é dele, não minha. E me diz uma coisa: desde quando preocupação virou política econômica? Desde quando o segundo homem mais importante da pasta que torra meio trilhão de reais por ano em juros da dívida tem o direito de aparecer na televisão fazendo cara de vítima do imperialismo, como se o Brasil fosse uma republiqueta indefesa que acordou ontem no mapa?
Olha, a tarifa americana é o sintoma, não a doença. Um país com câmbio sólido, contas equilibradas, indústria competitiva e moeda confiável não fica de joelhos toda vez que um secretário de comércio em Washington pigarreia. Quem fica de joelhos é o país que escolheu, ano após ano, gastar mais do que arrecada, imprimir confiança que não tem lastro, criar ministério para tudo, distribuir cargo para aliado, financiar campanha eleitoral com Pix disfarçado de programa social e ainda achar que o resto do mundo é obrigado a comprar nossa commodity sem fazer perguntas. A vulnerabilidade externa do Brasil não nasceu em Washington. Nasceu na Esplanada.
Quer dizer, é preciso ter um certo desplante para um representante do governo que aprovou arcabouço fiscal furado, que driblou teto de gastos com criatividade contábil de boteco, que entupiu o BNDES de dinheiro carimbado para campeão nacional escolhido a dedo, vir agora bater no peito como defensor da economia brasileira contra a maldade tarifária estrangeira. O sujeito ajudou a apagar o incêndio com gasolina e agora reclama que o vizinho fechou a janela por causa da fumaça. É de uma cara de pau que só se vê em Brasília, onde a memória dura o tempo de uma manchete e a vergonha foi aposentada por inutilidade.
Siga o dinheiro e a imagem fica nítida. Quem ganha com o protecionismo de lado a lado? O industrial nacional acomodado que dorme tranquilo sabendo que o consumidor brasileiro vai pagar caro pelo seu produto ruim porque o concorrente lá fora está taxado. O lobista que vive de cochichar no ouvido de ministro. O sindicalista que vende a ideia de que emprego protegido é emprego, quando na verdade é só transferência de renda do povo todo para um setor cativo. Quem perde? O consumidor, sempre o consumidor, que paga preço maior, qualidade pior e ainda ouve no telejornal que isso tudo é em nome de uma soberania que nunca chega. A janela quebrada não enriquece ninguém, e a tarifa que protege um quebra dez sem que ninguém os conte.
Há ainda o detalhe que esses cavalheiros adoram esconder: tarifa americana sobre produto brasileiro não cai do céu como castigo divino. Ela é resposta. É reação a um país que se vendeu para a China como quintal de matéria-prima, que flerta com regimes párias enquanto faz pose de neutro, que assina pacto com ditadura e depois se ofende quando a maior democracia ocidental do planeta resolve recalibrar a relação comercial. Diplomacia tem custo, ideologia em política externa tem preço, e a conta sempre chega pela alfândega. Não é maldade do gringo, é consequência da escolha de quem governa.
A solução, ao contrário do que sugere o secretário aflito, não é mandar comitiva chorar em Washington nem retaliar com tarifa nossa, que só vai encarecer ainda mais a vida do brasileiro comum. A solução é arrumar a casa: gastar menos, cobrar menos imposto, desregulamentar o que sufoca empresa pequena, parar de proteger campeão nacional que só é campeão dentro da bolha estatal, abrir a economia de verdade em vez de assinar acordo de mentira. País forte não teme tarifa, país forte negocia de igual para igual. O Brasil só treme porque escolheu, soberanamente, ser fraco. E continuará tremendo enquanto o problema for tratado como se viesse de fora, quando ele mora, com endereço fixo e CNPJ, dentro do próprio Palácio do Planalto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.