O governo cedeu, diz a manchete, e vai negociar uma regra de transição para enterrar a escala 6×1. Traduzindo do português institucional para o português honesto: o Planalto percebeu que não tem voto para passar a proibição na marra e agora vende como "diálogo" aquilo que é, na origem, a mesma intervenção de sempre, só com o ritmo ajustado para não espantar o eleitor antes da hora. O relatório sai na segunda-feira, dizem. E ninguém pergunta o que parece pergunta de criança, mas é a única que importa: por que cargas d'água um deputado em Brasília precisa decidir como o padeiro da esquina combina o expediente com a moça do caixa?

A escala 6×1 não é uma invenção maligna de patrão maquiavélico. É um arranjo que dois adultos, em pleno gozo de suas faculdades mentais, assinam porque, para os dois, faz sentido naquele momento. O comerciante precisa do balcão aberto seis dias. O trabalhador precisa do salário no fim do mês. Os dois trocam. Quando o Congresso entra no meio dessa troca dizendo "isso aqui está proibido, mas calma, vamos com uma reguinha de transição", ele não está protegendo o trabalhador. Está dizendo a ele que a partir de agora a vaga que existia talvez não exista mais, e quando não existir, a culpa será do mercado, nunca da lei que criou o problema.

É aqui que vale fazer aquela conta que ninguém faz em horário nobre. O emprego que sobrevive depois da nova escala, com mais funcionários para cobrir o mesmo balcão e folha de pagamento inchada, esse a televisão vai mostrar como vitória social. As vagas que simplesmente não foram abertas, o pequeno comércio que fechou no interior porque a matemática deixou de fechar, o jovem de primeiro emprego que ficou na fila esperando uma oportunidade que evaporou no relatório do relator, esses não dão imagem boa de telejornal. Não saem em coletiva. Não constam de gráfico do ministério. Mas estão lá, na contabilidade silenciosa de toda lei que promete dar sem dizer de onde tira.

E note o detalhe técnico que entrega o jogo. Ninguém está revogando o 6×1 porque descobriu que ele viola algum princípio sagrado da natureza humana. Está revogando porque rende manchete, mobiliza categoria, e dá ao governo a oportunidade de aparecer como benfeitor sem desembolsar um centavo do próprio orçamento. A conta inteira é jogada no colo do empresário, que por sua vez joga no colo do consumidor via preço, que por sua vez vira reclamação contra "a ganância do setor privado". O circuito é perfeito: o Estado gera o problema, culpa o mercado pelo problema, e se vende como solução do problema que ele mesmo criou. Quem acompanha a história sabe que esse roteiro tem barba branca.

A "regra de transição" é só o nome bonito que se dá ao reconhecimento de que a intervenção, aplicada de uma vez, quebraria coisa demais cedo demais. Então fatia-se em parcelas, distribui-se o estrago no tempo, e assim ninguém percebe direito o momento em que a economia ficou um pouco mais pobre, um pouco mais rígida, um pouco menos capaz de absorver quem precisa entrar pela primeira vez no mercado de trabalho. Cada nova camada regulatória funciona assim. Vem com nome de proteção, sai como custo, e fica como hábito. Daqui a dez anos, ninguém se lembrará de como era antes, e qualquer um que ousar propor flexibilidade será chamado de inimigo do trabalhador.

O ponto cego do debate é fingir que existe um terceiro caminho entre permitir e proibir, quando o que existe de verdade é apenas a escolha entre deixar adultos negociarem suas próprias jornadas ou colocar um burocrata para decidir por eles. O Congresso escolheu o burocrata, embrulhou em transição, e vai chamar isso de avanço civilizatório. Avanço civilizatório seria o oposto: confiar que o brasileiro sabe assinar o próprio contrato sem que um relator de Brasília precise revisar a cláusula com caneta vermelha. Enquanto isso não acontecer, toda "vitória trabalhista" virá com fatura anexa, e a fatura, como sempre, chegará endereçada a quem menos pode pagá-la.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.