Existe uma escola muito antiga de governança que poderia ser resumida assim: quando o barco afunda, troque o capitão e declare que o barco foi salvo. O governo Lula, com a precisão de quem aperfeiçoou a técnica ao longo de décadas, aplicou a lição esta semana com eficiência quase admirável. Gilberto Waller foi demitido da presidência do INSS em meio a investigações sobre um esquema de descontos não autorizados nas aposentadorias, um escândalo que envolve entidades associativas e que custou, segundo estimativas preliminares, centenas de milhões de reais arrancados diretamente da conta de quem recebe um salário mínimo para sobreviver. A solução encontrada foi nomear Ana Cristina Viana Silveira, servidora de carreira desde 2003, como se a longevidade no cargo fosse garantia de que desta vez seria diferente.
Olha, o ponto que ninguém no Planalto quer discutir é este: as fraudes no INSS não aconteceram a despeito do sistema, elas aconteceram dentro do sistema, com o sistema, pelo sistema. Entidades credenciadas, autorizadas, que operavam com a benção institucional de um aparato burocrático que o governo chama de "proteção social". Quando um aposentado descobre que a mensalidade de uma associação que jamais contratou está sendo descontada diretamente do seu benefício, o problema não é o nome de quem preside o órgão; é a arquitetura que permite que isso aconteça. Trocar a pessoa que assina os papéis sem tocar na engrenagem que produz os papéis não é reforma, é cosmético. É o tipo de intervenção que resolve a manchete de amanhã sem resolver o problema do mês que vem.
Na mesma cerimônia de formalidades, José Guimarães recebeu o título de ministro da Secretaria de Relações Institucionais, o que o jornalismo polido chama de "articulação política" e o português claro chama de negociador de votos. Guimarães ocupava há três anos a liderança do governo na Câmara, o que significa que a função é exatamente a mesma, com a diferença de que agora vem com gabinete ministerial, equipe, verba e prestígio protocolar. A razão da formalização é que Gleisi Hoffmann foi liberada para comandar o PT em ano eleitoral, o que diz, em voz alta, tudo que precisa ser dito sobre a natureza da articulação política neste governo: ela é, foi e sempre foi uma operação eleitoral com sede no Planalto e financiada pelo contribuinte.
Quer dizer, há algo de pedagogicamente valioso neste episódio para quem quiser enxergar. O INSS é um sistema compulsório, que retira da folha de pagamento de cada trabalhador brasileiro uma fatia considerável da renda ao longo de décadas, gerenciado por um Estado que demonstrou ser incapaz de impedir que criminosos usassem o próprio cadastro do órgão para cometer fraudes sistemáticas contra os mesmos segurados que o sistema alega proteger. A resposta ao fracasso do controle estatal é, invariavelmente, mais controle estatal: uma nova presidente, uma nova comissão, um novo conjunto de medidas para "coibir abusos", que serão seguidas, em algum momento futuro, por um novo escândalo. O padrão não é coincidência; é consequência lógica de um sistema que concentra poder sem concentrar responsabilidade.
A simultaneidade das duas nomeações não é coincidência de agenda. Gleisi saindo da articulação para liderar o partido, Guimarães assumindo o posto com a experiência de quem passou três anos construindo "consensos legislativos", Paulo Pimenta migrando da comunicação para a liderança na Câmara: tudo isso é o governo montando sua estrutura para 2026. O INSS serve de pano de fundo conveniente para a narrativa de "governo que age", quando, na realidade, o que se age é o posicionamento eleitoral. O aposentado fraudado é o figurante desta produção, aquele que aparece nos discursos de posse como prova de que os nobres propósitos da nova gestão são sinceros.
No fim do dia, a conta é simples. Um sistema obrigatório, financiado por contribuições compulsórias de trabalhadores que não têm escolha senão pagar, permitiu que terceiros subtraíssem dinheiro diretamente dos benefícios dos segurados. A resposta do governo não foi extinguir os mecanismos que tornaram o roubo possível. Foi nomear outra pessoa para presidir o sistema que roubou, e chamar isso de solução. Em algum momento da história, esse movimento tinha um nome mais honesto; hoje, tem nota à imprensa e cerimônia de posse com palmas.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.