Eis o teatro de sempre. O governo descobre, com a perspicácia de quem acabou de chegar ao planeta Terra, que existem juros altos no consignado privado e, em vez de perguntar por que estão altos, decide tabelar. É a velha receita do curandeiro que, diante de um termômetro marcando quarenta graus, quebra o termômetro e declara o paciente curado. Os juros não são números aleatórios cuspidos por um banqueiro malvado tomando uísque na cobertura. São o preço do risco, da inadimplência, do custo de captação, do compulsório, da insegurança jurídica e de cada penduricalho regulatório que o próprio governo empilhou em cima do sistema financeiro nas últimas três décadas.
Quer dizer, o sujeito cria a doença com uma mão e vende o remédio com a outra. A inadimplência do brasileiro está nas alturas porque a economia é o que é, o desemprego oculto é o que é, e o Judiciário leva sete anos para executar uma garantia. Tudo isso entra no preço do crédito, porque preço é informação condensada, é a soma de milhões de variáveis que nenhum burocrata em Brasília, por mais bem intencionado e bem pago que seja, jamais conseguirá calcular sentado numa sala com ar-condicionado e café requentado. Quando o governo decreta o teto, ele não está reduzindo o risco real, está apenas proibindo que o preço o reflita. E o que acontece quando você proíbe o termômetro de marcar a febre? A febre continua, só que agora você está cego.
Olha, siga o dinheiro. Quem ganha com tabelamento de juros nunca é o trabalhador pobre que o governo finge defender no microfone. Ganha o banco grande, que tem escala para operar com margem apertada e expulsa do mercado a fintech menor, a financeira regional, a cooperativa de crédito que conseguia atender o cliente de risco mais alto. Ganha o agiota, que opera sem CNPJ, sem regulação, sem teto e sem dó, e que recebe de braços abertos o trabalhador que o sistema formal acabou de chutar para fora. Ganha o político, que sai na televisão batendo no peito como protetor do humilde, enquanto o humilde, lá no fim do mês, descobre que ninguém mais empresta para ele a juro nenhum, abusivo ou camarada.
O que se vê é o trabalhador "salvo" do juro alto. O que não se vê é o trabalhador que simplesmente não consegue mais crédito porque o banco, fazendo a conta básica que qualquer dona de casa faz na padaria, concluiu que naquele preço tabelado a operação dá prejuízo. O que não se vê é o pequeno empréstimo emergencial que deixa de existir, a cirurgia que não é feita, o carro velho que não é trocado, o curso técnico que não é pago. O que não se vê é a migração silenciosa para o crédito informal, onde o juro abusivo de verdade mora há séculos esperando essas pernadas regulatórias que o governo chama de proteção. A história econômica do mundo está cheia desses experimentos, todos com o mesmo final, e ainda assim a cada geração aparece um iluminado disposto a tentar de novo, como se desta vez fosse diferente.
Tem ainda a parte filosófica, que o brasileiro médio aprendeu a ignorar de tanto ouvir bobagem na televisão. O contrato entre duas partes adultas, capazes, informadas, é algo que pertence às partes, não ao governo. Se um trabalhador maior de idade, com pleno conhecimento, decide que vale a pena pegar dinheiro emprestado a determinada taxa para resolver um problema que ele, e só ele, sabe qual é, quem é o burocrata em Brasília para dizer que aquele acordo é "abusivo"? A premissa de que o cidadão é um incapaz que precisa ser tutelado contra suas próprias decisões é a mesma premissa que justifica todo paternalismo desde que o mundo é mundo, e termina sempre no mesmo lugar: numa sociedade infantilizada, dependente e empobrecida, agradecendo o cabresto que a impede de respirar.
O nome técnico disso é despotismo suave. Não te prendem, não te batem, não te calam. Apenas decidem por você quanto você pode pagar pelo seu próprio dinheiro, em nome do seu próprio bem, com a aprovação da sua própria consciência adormecida pela propaganda. Daqui a seis meses, quando o crédito secar e a economia popular começar a rangir, o mesmo governo aparecerá com a próxima intervenção para corrigir os efeitos colaterais desta, e assim segue a espiral, cada nó apertando mais o pescoço do mercado até virar caricatura. E o trabalhador, esse personagem mítico em nome de quem tudo se faz, continuará exatamente onde sempre esteve: pagando a conta de uma proteção que ninguém pediu.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.