O número saiu com a solenidade de quem entrega um sacrifício no altar da austeridade: R$23,7 bilhões a serem bloqueados em verbas discricionárias dos ministérios, sob pressão do crescimento dos gastos obrigatórios. Traduzindo do economês para o português: o governo vai apertar exatamente aquilo que ainda guardava alguma aparência de escolha racional, o investimento, o custeio das pontas, a manutenção do mínimo que funciona, justamente porque a parte intocável da despesa, a que cresce no automático e ninguém ousa enfrentar, continua engolindo o orçamento como um buraco negro educado.
Repare na engenharia da farsa. Chamam de "bloqueio" o ato de não gastar dinheiro que não existe, financiado por imposto que sufoca quem trabalha ou por dívida que vai ser paga pelos filhos de quem hoje aplaude no palanque. É o equivalente ao sujeito que torrou o salário em farra, descobre que não tem como pagar o aluguel, e anuncia à família, com cara de estadista, que vai "cortar gastos" deixando de trocar a lâmpada queimada da cozinha. A cozinha apaga, a farra continua, e ainda querem medalha pela coragem.
O ponto que ninguém quer encarar é que gasto obrigatório não caiu do céu. Cada centavo dessa massa intocável foi criado por uma canetada, em algum momento, por alguém que sabia perfeitamente que estava amarrando o futuro a uma despesa permanente em troca de aplauso imediato. Vinculação constitucional, piso disso, reajuste daquilo, indexação automática, benefício para a categoria tal: tudo isso parecia "conquista civilizatória" no dia em que foi aprovado, e hoje é a corda no pescoço que aperta sozinha enquanto o orçamento se contorce. Quem prometeu sabia que a conta chegaria; só não imaginou que estaria longe quando ela viesse.
E siga o dinheiro, porque é aí que a hipocrisia fica nua. O que se bloqueia são as despesas que dão para discutir, fiscalizar, cortar gordura, exigir resultado. O que não se toca são os arranjos consagrados, as folhas blindadas, os repasses cativos, os benefícios convertidos em direito adquirido por uma geração inteira de políticos que descobriu que é mais barato comprar voto com dinheiro alheio do que produzir riqueza real. O contribuinte paga a conta duas vezes: primeiro no imposto que financia o intocável, depois na inflação e nos juros que financiam o resto. E ainda lhe dizem que ele deveria estar grato pelo "ajuste".
Há uma ironia cruel no espetáculo. O mesmo Estado que se diz incapaz de cortar privilégio, incapaz de revisar vinculação, incapaz de enfrentar corporação, descobre uma capacidade quase miraculosa de bloquear obra de saneamento, manutenção de hospital, recurso de pesquisa, asfalto de estrada vicinal. O custeio do essencial é flexível; o desperdício do conveniente é sagrado. Quando o governo escolhe o que sangra, está dizendo, com a clareza de quem assina embaixo, quais vidas valem menos no cálculo político.
O resultado já se vê no horizonte: investimento público desaba, serviço básico se deteriora, juro permanece nas alturas porque o mercado não é bobo e sabe ler balanço, setor produtivo paga a fatura para sustentar a engrenagem que o sufoca. E daqui a algum tempo, quando a fila do hospital crescer, quando a estrada engolir o caminhão, quando a obra parar, virão os mesmos arquitetos da ruína explicar, na televisão, que faltou "vontade política" e que a culpa, claro, é do mercado. A farsa só termina quando alguém tiver a coragem de fazer o que ninguém quer: mexer no intocável, romper a vinculação, encerrar o privilégio, devolver o orçamento ao controle de quem o financia. Enquanto isso, vamos seguir bloqueando lâmpadas enquanto a casa pega fogo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.