Dez bilhões de reais. Esse é o valor que o governo decidiu, com a naturalidade de quem pede um café, excluir da meta fiscal das estatais para 2027. O mecanismo é engenhosamente simples: o dinheiro sai, a estatal gasta, o rombo existe, mas na hora de prestar contas ele desaparece da planilha como se nunca tivesse existido. Não é calote, não é fraude, é pior: é a institucionalização do autoengano. O PLDO 2027 transforma deficit real em ficção contábil, e o contribuinte, que financia a brincadeira sem ser consultado, fica com a conta e sem a informação. Me diz uma coisa, desde quando esconder despesa virou sinônimo de responsabilidade fiscal?

O protagonista dessa novela é, claro, os Correios. A estatal que o Brasil inteiro já sabe que não funciona direito está em crise aberta desde o final de 2024, acumulou um empréstimo de R$ 12 bilhões com consórcio bancário, foi autorizada pelo CMN a tomar mais R$ 8 bilhões, e agora receberá um aporte gordo da União em 2027, tudo isso convenientemente fora do cálculo da meta. O plano de reestruturação promete cortar R$ 2 bilhões em despesas, demitir 15 mil funcionários e fechar mil agências. Quer dizer, a estatal que deveria ter sido privatizada há duas décadas agora precisa de uma operação de guerra para sobreviver, financiada pelo mesmo povo que já paga caro por um serviço que a iniciativa privada entrega mais rápido e mais barato. O padrão é sempre o mesmo: primeiro a estatal sangra, depois o Tesouro transfunde, e no final ninguém é responsabilizado porque o prejuízo foi reclassificado como "investimento estratégico".

Olha, o truque de tirar despesa do cálculo oficial não é invenção deste governo. É uma tradição bipartidária, quase um patrimônio imaterial da República. Precatórios saem, estatais saem, PAC sai, e quando você olha o número que sobra, a meta está lindamente cumprida. Só que os gastos fora do arcabouço fiscal já acumulam R$ 163,8 bilhões até 2026. Cento e sessenta e três bilhões que existem na realidade mas não existem na contabilidade. Se um empresário fizesse isso com seu balanço, estaria preso. Quando o governo faz, chama de "flexibilidade fiscal" e publica nota técnica explicando por que desta vez é diferente. Nunca é diferente. É a velha contabilidade criativa com capa nova, e o mercado sabe disso, os juros futuros sabem disso, o câmbio sabe disso. Só o governo finge que não sabe.

O que ninguém pergunta, porque a pergunta é inconveniente, é o seguinte: por que os Correios ainda existem como estatal? Qual a justificativa racional, em 2026, para manter sob controle do governo federal uma empresa de logística que compete com dezenas de operadores privados que fazem o mesmo serviço sem pedir um centavo do contribuinte? A resposta, evidentemente, não é econômica. É política. São 80 mil funcionários que votam, são sindicatos que pressionam, são cargos de indicação que alimentam a máquina partidária. A reestruturação anunciada com pompa, os cortes prometidos, as metas de retorno ao lucro em 2027, tudo isso já foi prometido antes, em ciclos anteriores, com os mesmos slides otimistas e os mesmos resultados medíocres. A diferença é que agora a conta tem dez dígitos e vem carimbada como "fora da meta" para que ninguém precise explicar de onde saiu o dinheiro.

O mais perverso dessa engenharia é o que ela faz com a credibilidade do próprio arcabouço fiscal que este governo criou como substituto do teto de gastos. A regra nasceu em 2023 prometendo disciplina, e desde então não para de ganhar exceções, atalhos e válvulas de escape. Cada exclusão da meta é uma confissão silenciosa de que o governo não consegue, ou não quer, caber dentro do limite que ele mesmo desenhou. E cada confissão dessas corrói a confiança do mercado, encarece o custo da dívida e empurra os juros para cima, penalizando justamente o brasileiro comum que toma crédito para comprar sua casa, abrir seu negócio ou pagar suas contas. A meta fiscal que aceita exceções de R$ 10 bilhões não é meta. É sugestão.

No fim das contas, o que se tem aqui é o retrato fiel de como funciona o Estado brasileiro: uma máquina que nunca encolhe, que transforma todo fracasso em motivo para gastar mais, e que quando o número não fecha, muda o número. Os Correios não dão lucro? Injete bilhões. A meta não comporta? Tire da meta. O contribuinte reclama? Mude o nome da despesa. O jogo continua até que a realidade, que não lê nota técnica nem respeita decreto, apresente a fatura. E quando ela chega, não vem com carimbo de "fora da meta". Vem com inflação, juros altos e um povo mais pobre perguntando para onde foi o dinheiro.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.