Um homem saiu, uma mulher entrou, e o Palácio do Planalto respirou aliviado achando que o problema estava resolvido. Gilberto Waller deixou o comando do INSS carregando nas costas o desgaste de um instituto que acumula filas de centenas de milhares de pedidos represados, benefícios negados por erro burocrático e aposentados que morrem esperando uma resposta do sistema que deveria protegê-los. Ana Cristina Viana Silveira assume com a missão de "acelerar concessões e modernizar processos", formulação que todo brasileiro já ouviu antes e que significa, na prática, absolutamente nada.

Vale a pena parar um segundo e contemplar o que está sendo dito aqui sem que ninguém ouse dizer em voz alta. O Estado brasileiro obriga cada trabalhador formal a entregar uma fatia do seu salário ao INSS desde o primeiro dia de carteira assinada. Não é opcional. Não é negociável. Não existe alternativa privada juridicamente viável para quem quer se livrar desta exigência. O trabalhador paga. Paga a vida inteira. E quando finalmente chega a hora de receber o que lhe foi prometido em troca desta contribuição compulsória décadas antes, o sistema simplesmente não funciona. A fila não anda. O pedido some. O benefício não sai. E a solução apresentada pelo governo é trocar o diretor.

Qualquer empresa privada que operasse desta forma estaria fora do mercado em seis meses. A concorrência eliminaria este modelo porque nenhum cliente em sã consciência continuaria pagando por um serviço que não entrega o que vende. Mas o INSS não tem concorrência. Não pode ter. A lei garante o monopólio e o trabalhador não tem para onde correr. Esta é a primeira e mais fundamental razão pela qual o instituto falha sistematicamente: não há punição pelo fracasso. O gestor incompetente não perde cliente, perde cargo, e vai para outro lugar. O trabalhador lesado não tem alternativa, tem apenas paciência compulsória.

A troca de comando é um ritual que o poder brasileiro repete com a regularidade de quem acredita que o problema de uma máquina enferrujada é o operador, não a máquina. Nos anos de Collor, o Estado era inchado e precisava de reforma. Nos de FHC, era ineficiente e precisava de modernização. No primeiro Lula, era excludente e precisava de inclusão. No Bolsonaro, era capturado e precisava de limpeza. No Lula atual, está atrasado e precisa de aceleração. Em cada caso, a solução foi ajustar o vocabulário da promessa sem tocar na estrutura que gera o problema. O INSS de 2026 tem os mesmos vícios do INSS de 1996 porque o incentivo que perpetua esses vícios nunca foi removido.

Olha, siga o dinheiro quando a névoa do discurso oficial encobrir o diagnóstico real. O INSS administra hoje uma das maiores massas de recursos do país. A folha de benefícios previdenciários supera 800 bilhões de reais por ano. Um sistema desta magnitude, sem auditoria independente robusta, sem concorrência disciplinadora e sem responsabilização efetiva dos gestores, é território fértil para todo tipo de distorção, da incompetência ordinária ao descaso calculado. Não se está sugerindo aqui que há conspiração onde basta a burrocracia. Mas quando um sistema falha sistematicamente em benefício de quem administra a fila e em prejuízo de quem espera nela, a pergunta sobre cui bono não é paranoia, é metodologia.

Ana Cristina Viana Silveira pode ser uma gestora competente, honesta e dedicada. Este texto não sabe e não afirma o contrário. O que este texto afirma é que o destino dela está selado antes mesmo de ela sentar na cadeira, porque o problema que ela foi contratada para resolver não é gerencial, é ontológico. Você não resolve um monopólio obrigatório trocando o presidente do monopólio. Você não resolve a ineficiência estrutural do Estado contratando gestores melhores para administrá-la. O Estado promete o que não pode cumprir, cobra o que não tem mandato moral para cobrar, e quando falha, troca o garçom e manda imprensa cobrir a transição como se fosse notícia. A conta, como sempre, fica com o trabalhador.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.