A notícia chega embrulhada no papel de presente do otimismo corporativo: a Grand Vision Media registrou aumento de 10% na receita e reduziu o prejuízo do trimestre. Pronto, está dada a manchete, e os corretores já correm para vender narrativa antes que alguém se lembre de ler o balanço inteiro. Quer dizer, a empresa continua perdendo dinheiro, só que perde um pouquinho menos que antes, e isso, no vocabulário criativo do mercado contemporâneo, virou motivo de celebração. É como se o sujeito que estava afundando dois metros por minuto agora afundasse apenas um e meio, e o capitão do navio mandasse abrir o champanhe.
Olha, há uma diferença ontológica entre crescer e parar de encolher tão rápido, e essa diferença é exatamente onde mora a fraude semântica que sustenta meio mercado de capitais hoje. Receita subindo é um dado bruto, não uma virtude. O que importa não é o tamanho do faturamento, é o que sobra depois que se pagou tudo aquilo que precisou ser pago para faturar, e se o que sobra ainda é negativo, então o aumento de receita pode estar simplesmente acelerando a sangria por um cano de diâmetro maior. Toda dona de casa entende isso, todo dono de padaria entende isso, mas o analista de banco fingindo sofisticação prefere o gráfico bonito ao raciocínio elementar.
Me diz uma coisa: por que tanta empresa de mídia digital, depois de uma década inteira de subsídio implícito via dinheiro barato, ainda não sabe ganhar dinheiro com o próprio negócio? A resposta incomoda porque é simples. Anos e anos de juros artificialmente baixos criaram um ecossistema inteiro de companhias que nunca precisaram ser rentáveis, bastava prometer rentabilidade futura, e o crédito farto financiava o teatro. Quando o custo do dinheiro voltou a existir, descobriu-se que metade dessas empresas eram experimentos sociológicos disfarçados de modelo de negócio. O ajuste agora é o despertar, não o sucesso.
Repare no truque retórico do comunicado: fala-se em redução de prejuízo como conquista, em corte de custos como estratégia, em eficiência operacional como se eficiência não fosse a obrigação mínima de qualquer empreendimento sério desde o primeiro dia. Empresa saudável não comemora cortar gastos, empresa saudável estranha que tenha sido necessário cortar tanto. Essa linguagem da gestão profissional moderna serve para vestir a falência lenta com terno e gravata, e o investidor desavisado paga o ingresso do espetáculo achando que comprou ação de algo que cresce. Comprou bilhete da rifa.
O que não se vê no relatório é o mais importante. Não se vê quanto capital foi queimado para chegar a esse prejuízo "menor", não se vê o custo de oportunidade do dinheiro que poderia ter ido para empreendimentos genuinamente produtivos, não se vê o efeito acumulado de anos de estímulo monetário que mantém vivos negócios que o mercado livre, sem anestesia, teria enterrado há muito tempo. Cada zumbi corporativo que sobrevive consome recursos escassos que faltarão em outro lugar, e a conta dessa má alocação chega depois, sempre chega, geralmente disfarçada de inflação ou recessão para que ninguém ligue a causa ao efeito.
A lição que o leitor deveria levar para casa é desconfiar profundamente do vocabulário comemorativo aplicado ao prejuízo. Resultado negativo é resultado negativo, e a única métrica honesta de uma empresa é se ela gera mais valor do que consome, com o dinheiro de quem aceitou voluntariamente confiar nela. Tudo o que vem antes disso é narrativa, e narrativa, no mercado financeiro como na política, é sempre o disfarce preferido de quem precisa que você não olhe direito para os números. Prejuízo menor não é lucro, e quem confunde sobrevivência com vitória vai descobrir, mais cedo ou mais tarde, que estava aplaudindo o próprio enterro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.