A notícia, em si, é trivial para quem entende como o mundo funciona, e escandalosa para quem ainda acredita em fadas. Com uma safra cheia batendo na porta, as usinas do Centro-Sul estão deslocando o mix para o açúcar e diminuindo a produção de etanol. Não é maldade do usineiro, não é traição à pátria verde, não é sabotagem dos combustíveis renováveis. É preço relativo. O açúcar internacional está pagando mais do que o etanol doméstico, e quem produz biocombustível por convicção ideológica não dura uma safra na lavoura. Dura, talvez, uma reportagem patrocinada na imprensa amiga.
Quer dizer, durante anos ouvimos a ladainha de que o Brasil tinha vocação natural para liderar a transição energética, que o etanol era o futuro, que as usinas deveriam ser tratadas como ativos estratégicos da humanidade contra o aquecimento global. Vieram subsídios, vieram benefícios tributários, vieram metas, vieram cotas. E bastou o mercado mundial sinalizar que a tonelada de açúcar valia mais do que o litro de álcool para que toda a poesia evaporasse no primeiro caldeirão. O mercado tem essa mania chata de não respeitar narrativa. Ele responde a preço, e preço é a única linguagem que diz a verdade sem precisar de coletiva de imprensa.
Olha, vale prestar atenção no que essa migração revela. Quando o governo dita que combustível tem que ser X% renovável, quando o RenovaBio promete créditos de descarbonização que só existem porque alguém assinou uma portaria, quando o Cide-combustíveis e o ICMS dançam conforme a conveniência fiscal de Brasília, o que se cria não é um mercado energético, é um cassino regulatório. E nesse cassino, o usineiro inteligente aprende rápido: não se especialize, mantenha flexibilidade, esteja pronto para girar a chave. Quem comprou o discurso e investiu pesado em destilaria exclusiva está hoje comendo a poeira de quem manteve a usina dual e calculadora na mão.
Me diz uma coisa, alguém vai cobrar dos profetas do etanol pelo prejuízo que a propaganda enganosa causou ao motorista comum? O brasileiro que abasteceu acreditando que o álcool seria sempre mais barato porque o governo prometeu, que comprou flex pensando estar fazendo um favor ao planeta, agora descobre que a paridade é decidida em Nova York e Londres, não no Alvorada. O preço do açúcar lá fora sobe, a oferta de etanol cai aqui dentro, a bomba reflete, e o consumidor paga a conta de uma engenharia social que, como toda engenharia social, faliu na primeira esquina onde o sinal estava fechado.
O mais sublime da história é o silêncio constrangido dos planejadores. Aqueles mesmos que enchiam slide de PowerPoint sobre matriz energética limpa, que apareciam em foro internacional batendo no peito a respeito da liderança brasileira em biocombustíveis, agora fingem que a migração para o açúcar é um detalhe técnico de mercado. Não é detalhe, é confissão. É a admissão silenciosa de que a alocação de recursos por decreto sempre vai perder para a alocação por preço, porque o decreto ignora milhões de variáveis que o preço sintetiza automaticamente. Burocrata em Brasília não sabe quanto de chuva caiu em Ribeirão Preto, qual o frete até Santos, como anda a colheita na Tailândia. O preço sabe. O preço sabe porque é a única coisa no mundo que reúne, em um número só, o conhecimento disperso de bilhões de pessoas.
Que o usineiro escolha açúcar quando o açúcar paga, e etanol quando o etanol paga, é o sistema funcionando exatamente como deveria. O escândalo não é a migração, é termos passado duas décadas fingindo que o contrário seria possível. A próxima crise dos combustíveis no Brasil já está sendo gestada nos mesmos gabinetes que produziram esta, com os mesmos consultores, os mesmos lobbies e a mesma certeza inabalável de quem nunca errou na vida porque nunca arriscou um centavo do próprio bolso. O mercado, esse traidor incansável das boas intenções, há de continuar fazendo o que sempre fez: dizer a verdade sem pedir licença.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.