O relatório do Greenpeace aponta US$ 3,8 bilhões em ouro ilegal lavados na Amazônia, e a manchete chega ao leitor como se fosse novidade. Não é. O garimpo ilegal só existe na escala em que existe porque há, do outro lado do balcão, um arranjo burocrático que recebe a barra suja e devolve uma nota fiscal limpinha. O ouro não se lava sozinho no rio Madeira; ele é lavado num escritório com ar-condicionado, carimbo da Receita e um despachante que conhece o caminho das pedras. Toda vez que um relatório dessa natureza aparece, a conversa pública se concentra no garimpeiro de chinelo no meio da selva, e o sujeito de gravata que assinou a declaração de origem some do enquadramento. Conveniente.

O mecanismo é antigo e desavergonhado. O comprador autorizado, as famosas DTVMs, declara que comprou o ouro de uma cooperativa em área permitida, e a palavra dele basta. Bastou por décadas. Era a chamada presunção de boa-fé, uma ficção jurídica desenhada por quem sabia exatamente o que estava desenhando. O Estado, que regula a cor da embalagem de biscoito e exige laudo para cortar uma árvore no quintal, durante anos aceitou a versão do comprador de ouro como se fosse confissão sob juramento. Não foi distração. Foi arquitetura. Quando a regulação é frouxa num ponto específico e rigorosa em tudo ao redor, a fresta não é acidente; é porta de entrada.

Siga o dinheiro e a história fica didática. O ouro extraído com mercúrio em terra indígena vira lingote em São Paulo, embarca para refinarias em Zurique, Dubai ou Toronto, e termina em fundo de investimento, joalheria de luxo ou reserva de banco central. Em cada estação dessa cadeia, alguém recebeu comissão, alguém pagou tributo, alguém deu posse de cargo. O garimpeiro que envenenou o rio fica com migalhas; o intermediário fica com a margem; o exportador fica com o lucro; e o regulador, que poderia ter fechado a torneira na origem, fica com o discurso indignado quando o relatório vaza. É um ecossistema, e ecossistema desse tipo não nasce; é cultivado.

O que se vê é o estrago ambiental, a Yanomami doente, o garimpo nas imagens de satélite. O que não se vê é o serviço prestado pela burocracia ao crime organizado, que precisa do Estado para existir nessa magnitude. Mercado negro de verdade, sem cumplicidade institucional, opera em escala miúda, em margem estreita, com risco alto. Quando o crime movimenta bilhões de dólares com estabilidade de balanço trimestral, não é mais mercado negro; é mercado cinza, e o cinza é a cor preferida do funcionário público que faz vista grossa em troca de algo. Ninguém lava quatro bilhões em ouro sem coreografia oficial.

Então vem a parte previsível do roteiro. Greenpeace publica o relatório, ministros se comovem em entrevista coletiva, anunciam mais uma força-tarefa, criam mais um cadastro eletrônico, contratam mais um sistema de rastreabilidade que custará caro e funcionará mal. A solução proposta é sempre mais Estado para corrigir o que o Estado permitiu. Ninguém pergunta o óbvio: por que cabe ao governo dizer que ouro é legítimo, se o próprio governo é o elo mais frágil da cadeia? Por que a refinaria privada estrangeira exige rastreabilidade séria, e a brasileira aceita declaração de origem como quem aceita autógrafo? Porque lá fora a fraude custa caro ao fraudador; aqui ela custa caro ao contribuinte e barato ao fraudador. Inverta os incentivos e a lavagem some.

O escândalo verdadeiro não é o número de bilhões. O escândalo é a continuidade. Cada governo descobre o problema, finge espanto, promete combate, e entrega o próximo mandato com o ouro ilegal circulando exatamente do mesmo jeito, talvez com um aplicativo novo e um QR code para fingir modernidade. A floresta paga, o índio paga, o contribuinte paga, e o arranjo permanece intacto porque serve a gente demais. Quando todo mundo perde menos quem desenhou o sistema, o sistema não está quebrado; está funcionando exatamente como foi projetado.

Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.