Olha, é sempre o mesmo ritual. O volume de negociação de uma empresa explode do nada, o papel se agita como peixe fora d'água, e aí vem o comunicado solene, assinado por gente de gravata, jurando de pés juntos que não tem a menor ideia do que está acontecendo. O Grupo Aeroportuário do Centro Norte acaba de encenar essa peça mais uma vez, e o público, treinado a engolir, aplaude educadamente. Quer dizer, ninguém sabe de nada, mas alguém claramente sabia o suficiente para movimentar caminhão de dinheiro antes do resto do rebanho perceber.
O fato concreto é simples: quando o volume sobe sem notícia pública correspondente, há informação assimétrica em circulação. Isso não é teoria conspiratória, é aritmética básica de mercado. Alguém comprou ou vendeu sabendo de algo que os outros não sabiam, e esse algo costuma morar exatamente naquele lugar onde a empresa convive com o regulador, com o concessor, com o ministério, com o burocrata que decide tarifa, prazo de concessão, reajuste e licença ambiental. Aeroporto não é padaria. Aeroporto é concessão, é canetada, é decisão de gabinete travestida de planejamento técnico.
Aqui mora a graça do arranjo. O mercado de capitais brasileiro foi vendido ao povo como espaço de meritocracia produtiva, onde o cidadão comum poderia participar do crescimento das empresas. Na prática, virou um cassino onde as cartas marcadas circulam entre quem janta com diretor de agência reguladora e quem tem amigo no segundo escalão. O pequeno investidor entra no jogo achando que está disputando contra outros pequenos, e descobre tarde demais que disputava contra quem já sabia o resultado da partida antes do apito inicial. Siga o dinheiro e você verá que, no fim, os volumes anômalos quase sempre apontam para a mesma direção: alguém com canal direto para o poder que decide o futuro do ativo.
E note a beleza do comunicado. A empresa diz que não tem explicação. Traduzindo do português corporativo para o português honesto: nós sabemos que algo aconteceu, sabemos que alguém se moveu, mas como não fomos nós oficialmente, lavamos as mãos. É o equivalente ao zelador que vê o cofre sendo arrombado e jura que estava no banheiro. O dever fiduciário de transparência foi cumprido na letra, violado no espírito, e ninguém perde o emprego por isso. O regulador, por sua vez, vai abrir uma investigação que demora três anos, termina em multa irrisória e arquivamento elegante.
Existe um mito persistente de que mais regulação resolveria isso. Mentira piedosa contada por quem vive de regular. Quanto mais densa a teia regulatória ao redor de um setor, mais valiosa fica a informação privilegiada sobre o que vai sair da caneta de quem regula, e mais lucrativa fica a proximidade com o gabinete certo. A solução nunca é mais comitê de compliance, é menos concessão estatal, menos monopólio outorgado, menos setor estratégico decidido por ministério. Onde o Estado decide quem ganha, o lucro maior é sempre de quem conhece o Estado por dentro, não de quem opera melhor.
O investidor comum que olha esse volume anômalo e tenta entrar no embalo está fazendo exatamente o que o sistema espera dele: servir de liquidez para os iniciados saírem com lucro. É a mecânica antiga do peixe pequeno alimentando o peixe grande, repintada com terminologia de governança corporativa para parecer moderna. E a empresa, séria, de paletó, garante que não sabe de nada. Pois é. Ninguém nunca sabe de nada, e ainda assim alguém sempre ganha muito.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.