Um grupo ativista abriu disputa por procuração na Seer, a gigante da educação básica brasileira, tentando emplacar nomes próprios no conselho de administração e arrancar o controle estratégico das mãos da atual gestão. A notícia chega embrulhada no papel celofane de sempre, defesa do acionista, governança corporativa, alinhamento de interesses, palavras bonitas que servem para vestir o que no fundo é uma briga muito mais antiga e muito mais prosaica, a briga por quem fica com o dinheiro que entra e por quem decide o que fazer com ele.

Olha, disputa por procuração é o eufemismo elegante para uma realidade simples, alguém olhou a empresa, calculou o desconto entre o valor de mercado e o valor que acredita ser o real, e concluiu que tem mais dinheiro a ganhar tomando o leme do que comprando ações no pregão e esperando os atuais gestores acordarem. Não há nada de errado nisso, é mercado funcionando, é gente arriscando capital próprio para tentar mudar o destino de um negócio. O problema começa quando o discurso vira liturgia e o ativista se apresenta como salvador do minoritário esquecido, quando na verdade está fazendo o que qualquer agente racional faria, otimizando o próprio retorno.

E aqui mora a parte que ninguém comenta. A Seer não é uma padaria, é um conglomerado educacional inflado por décadas de crédito estudantil subsidiado, por marcos regulatórios desenhados em Brasília que decidiram quem podia operar, quem podia se fundir, quem ia capturar a renda do setor. O que se vê na bolsa hoje é o resíduo financeiro de políticas públicas que jogaram dinheiro do contribuinte dentro do setor privado de educação superior por anos a fio, criaram gigantes artificialmente, e depois deixaram esses gigantes navegando em águas que ninguém sabe muito bem como precificar. Quando um ativista entra brigando por procuração, está disputando, no fim das contas, o espólio de uma festa que foi paga por todo mundo que paga imposto neste país.

O leitor distraído vai ler que o ativista quer destravar valor, profissionalizar a gestão, alinhar a empresa aos interesses dos acionistas, e vai achar que está assistindo a um capítulo edificante do capitalismo. O leitor atento percebe outra coisa. Percebe que esses movimentos quase sempre terminam em corte de custos agressivo, alienação de ativos, distribuição extraordinária de dividendos e, com sorte, uma reestruturação que dois anos depois deixa a empresa menor, mais endividada e com o ativista já tendo saído pela porta dos fundos com lucro embolsado. Quem fica é o funcionário demitido, o aluno que viu a mensalidade subir, o pequeno acionista que entrou tarde e saiu vendendo no fundo do poço.

Nada disso quer dizer que a atual gestão da Seer seja virtuosa ou competente, talvez seja exatamente o oposto, talvez o ativista esteja certíssimo no diagnóstico. O ponto é outro, é que o teatro da governança corporativa que vai começar nas próximas semanas, com cartas abertas, apresentações cheias de gráficos e bilhetes inflamados aos minoritários, tem muito pouco a ver com a doutrina elevada que vão tentar vender e tudo a ver com a velha pergunta de sempre, quem manda no caixa. E a resposta a essa pergunta, neste país, raramente foi decidida exclusivamente pela racionalidade do mercado, foi decidida sempre por uma combinação de capital privado, regulação estatal e amizades convenientes em órgãos reguladores e bancos públicos que ainda têm dedo em tudo.

Vai ser interessante assistir, vai ser instrutivo observar quem se alinha com quem, vai ser revelador ver qual lado os fundos de pensão estatais escolhem apoiar com seus votos, porque é nesse detalhe que se descobre se o capitalismo brasileiro é capitalismo de verdade ou se continua sendo aquela coisa híbrida em que o lucro é privado, o prejuízo é socializado e a decisão final passa sempre por um telefonema em Brasília. Me diz uma coisa, quantas dessas disputas por procuração você já viu terminarem com o pequeno investidor saindo melhor do que entrou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.