O Grupo Financiero Galicia divulgou números mistos no primeiro trimestre de 2026 e a manada analista correu ao teclado para decifrar planilha, como se planilha de banco argentino fosse coisa que se lê sem antes ler a história do peso. O lucro veio abaixo do esperado em algumas linhas, acima em outras, a margem financeira pressionada, o crédito ainda tímido, a inadimplência comportada mas vigiada. Tudo isso embrulhado naquele papel de presente que o mercado adora, o relatório técnico, como se houvesse algo de técnico em operar um banco numa economia que passou quarenta anos sendo tratada como caixa eletrônico do tesouro nacional.
Quer dizer, vamos combinar uma coisa antes de prosseguir. Banco argentino não tem balanço, tem boletim de guerra. Cada linha do demonstrativo é cicatriz de uma intervenção, de um congelamento, de um corralito, de uma taxa de juros decidida em gabinete por gente que nunca emprestou um centavo na vida. O que se vê no resultado do Galicia é o que sempre se vê quando uma economia tenta se levantar depois de décadas de bebedeira fiscal, o organismo treme, o fígado protesta, o coração acelera, e os médicos de plantão, os mesmos que serviam a cachaça, agora diagnosticam abstinência como se fosse doença nova.
Olha, o ponto que ninguém quer dizer em voz alta é simples. Quando você passa gerações imprimindo moeda para financiar empreguismo, subsídio energético e tarifa social, a conta não some, ela se esconde no balanço de quem ainda produz alguma coisa. O Galicia está pagando agora, em margem comprimida e demanda anêmica, o preço de cada peso impresso entre Kirchner pai, Kirchner mãe, Alberto e companhia. O ajuste atual da Argentina não é cruel, é tardio. E tardio é sempre mais caro do que precoce, qualquer pessoa que já adiou uma ida ao dentista sabe disso na carne.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. O crédito privado argentino é fração ridícula do PIB porque, durante décadas, o tesouro foi o cliente preferencial dos bancos, com dívida pública pagando juro suculento e risco soberano disfarçado de aplicação segura. Por que emprestar para padaria, fábrica de parafuso ou agricultor de Mendoza, se o estado paga melhor e cobra menos paciência? Pois é exatamente esse arranjo, essa simbiose perversa entre tesouro faminto e banco acomodado, que está sendo desmontado agora. Dói no balanço porque tinha que doer. A alternativa era continuar fingindo que dívida pública gigante é ativo de qualidade, conto da carochinha que terminou em 2001 e em 2018 e em 2023, e ninguém aprendeu.
O mais saboroso é ver o comentarista de TV repetir que o resultado do Galicia mostra os limites do programa de ajuste, como se o limite fosse do ajuste e não do estrago anterior. É o mesmo raciocínio do sujeito que come três pratos de feijoada, passa mal de madrugada e culpa o antiácido. O programa não criou a inflação reprimida, não criou a dolarização informal, não criou a desconfiança crônica do argentino no próprio sistema bancário. Esses são produtos genuínos, com selo de qualidade, da política econômica que foi vendida durante meio século como solidária, nacional e popular. Solidária com quem mamava no orçamento, nacional na bandeira e popular nos discursos, mas no fim das contas paga pelo aposentado que perdeu o poder de compra, pelo trabalhador que recebe em moeda derretida e pelo banco que agora apresenta resultado misto e leva a culpa.
O que o trimestre do Galicia ensina, para quem quer aprender, é que reconstruir um sistema financeiro sadio leva tempo e exige coragem para aguentar números medíocres no meio do caminho. Não existe atalho monetário, não existe almoço grátis, não existe banco forte em economia fraca. A Argentina está fazendo, com décadas de atraso e a contragosto da metade dos seus intelectuais, aquilo que toda economia séria precisa fazer mais cedo ou mais tarde, parar de mentir para si mesma sobre o valor da sua moeda. Os resultados mistos de hoje são o preço da verdade. E verdade, ao contrário de subsídio, sempre chega na conta certa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.