A notícia chega embrulhada em papel de presente: a GSK bateu as expectativas de Wall Street no primeiro trimestre, puxada pelos medicamentos especializados em HIV, oncologia e doenças autoimunes. Bloomberg publica, analista assina, ação sobe, executivo recebe bônus. O ritual é conhecido. O que ninguém quer perguntar em voz alta é uma coisa muito simples, quase grosseira: por que esses remédios custam o que custam, e quem decidiu que custariam isso?

Olha, a indústria farmacêutica gosta de se vender como exemplo de capitalismo selvagem, inovação heroica, gênios de jaleco branco arrancando moléculas do nada para salvar a humanidade. É bonito de ouvir. Só esquece de mencionar que o mercado em que ela opera é um dos mais blindados do planeta. Patentes estendidas por canetadas, agências reguladoras que decidem quem entra e quem não entra, sistema público de saúde de meio mundo comprando em escala industrial com dinheiro que não é dele, e órgãos como o FDA, EMA e Anvisa funcionando como porteiros de boate VIP. Quem diz que isso é livre mercado ou nunca leu um relatório anual de farmacêutica, ou está fingindo que não leu.

Siga o dinheiro e o quadro fica nítido. O HIV tem coquetel há décadas, com custo marginal de produção que cabe em moeda de troco, e ainda assim a margem é de luxo, porque o sistema garante comprador cativo: governos compram para distribuir, planos de saúde repassam para o segurado, e o paciente que paga do bolso engole o que vier. Em câncer, o jogo é ainda mais elegante: a patente vale anos, a concorrência genérica é empurrada para depois do amanhã, e cada novo lançamento vem com preço calculado não pelo custo, mas pelo que o sistema aguenta pagar antes de gritar. Isso não é precificação de mercado, é precificação de monopólio negociado em gabinete.

O detalhe doloroso é que muita pesquisa de base foi paga com dinheiro público, em universidades financiadas por contribuinte, que depois vê o produto final voltar com preço de Ferrari. Privatizam-se os lucros, socializam-se os riscos, e o cidadão aplaude porque foi convencido de que essa é a única forma possível de produzir remédio. Não é. Existe um mundo paralelo onde patente dura menos, onde competição genérica é estimulada de verdade, onde o preço cai porque alguém precisa vender mais barato para sobreviver. Esse mundo é proibido por lei, e a lei foi escrita por quem tinha interesse em proibi-lo.

O lucro da GSK acima do esperado, portanto, não é prova da virtude da empresa nem da brutalidade do mercado. É prova de que o arranjo está funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar: um cartel sancionado pelo Estado, em que poucos jogadores brigam entre si por fatias de um bolo que nenhum entrante novo consegue alcançar. Quando a Bloomberg publica que o lucro veio dos remédios de HIV e câncer, o leitor desavisado lê inovação. O leitor avisado lê tarifa de pedágio sobre quem está doente.

Me diz uma coisa: se amanhã o governo decidisse que pão só pode ser feito por seis padarias homologadas no mundo inteiro, com receita patenteada por vinte anos, alguém duvidaria que o pão ficaria caro? Pois é exatamente esse o jogo da farmacêutica, e a única diferença é que com pão a fome é visível. Com remédio, a morte do paciente que não conseguiu pagar é silenciosa, individual, estatisticamente diluída. E o trimestre seguinte, claro, vai bater as expectativas de novo.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.