A Gucci, aquela grife que vende bolsa por preço de carro popular, acaba de reportar uma queda de 8% nas vendas do primeiro trimestre em base comparável. Os analistas, esses profetas do óbvio que erram com precisão cirúrgica, esperavam uma queda de 4,3%. Erraram por quase o dobro. A Kering, dona da marca, ofereceu ao mercado a explicação mais conveniente disponível no balcão das desculpas geopolíticas: o conflito no Oriente Médio. Quer dizer, uma guerra a milhares de quilômetros das vitrines da Via Montenapoleone é a culpada por ninguém querer pagar doze mil euros numa bolsa de couro. Conveniente, não?

Olha, vamos combinar uma coisa. O Oriente Médio está em conflito desde que o mundo é mundo, e a indústria do luxo nunca deixou de faturar obscenamente por causa disso. Guerras, aliás, historicamente engordam as carteiras de quem vende ostentação, porque o dinheiro dos contratos militares, do petróleo inflacionado e da especulação geopolítica sempre encontra caminho até as butiques de Paris e Milão. O que mudou não foi a guerra. O que mudou foi o fim da festa do dinheiro barato. Durante mais de uma década, bancos centrais ao redor do mundo inundaram a economia com crédito a custo zero, inflaram o preço de todos os ativos imagináveis e criaram uma geração inteira de consumidores de luxo que não eram ricos, eram endividados com estilo. Agora que os juros subiram e o crédito encolheu, a Gucci descobre que parte da sua clientela nunca teve dinheiro de verdade. Tinha acesso a dinheiro dos outros.

Me diz uma coisa: quando uma empresa que vende produto de desejo puro, cuja única utilidade funcional é sinalizar status, vê suas vendas caírem o dobro do previsto, o problema é uma guerra no Levante ou é o modelo de negócio que dependia de uma anomalia monetária para se sustentar? A resposta é óbvia para qualquer pessoa que não seja paga para complicar o óbvio. O luxo verdadeiro, aquele comprado por gente que tem patrimônio sólido e renda real, não oscila com ciclos geopolíticos. O que oscila é o luxo de mentira, o luxo financiado, o luxo comprado com o cartão de crédito parcelado em doze vezes ou com o bônus de fim de ano que veio de um fundo alavancado até o pescoço. A Gucci não está sofrendo com a guerra. Está sofrendo a ressaca de uma década de política monetária que distorceu completamente a percepção de riqueza.

E tem um detalhe que ninguém na Bloomberg vai mencionar, porque a imprensa financeira existe para descrever o incêndio sem jamais apontar o piromaníaco. A Kering, assim como todo grande conglomerado de luxo europeu, se beneficiou enormemente de políticas fiscais e monetárias que concentraram renda no topo enquanto corroíam o poder de compra da classe média. Juros negativos na Europa durante anos empurraram poupança para ativos de risco, inflaram fortunas de papel e criaram uma clientela artificial para produtos que custam o salário anual de um trabalhador comum. Agora que essa engenharia se desfaz, a Gucci chora. Mas ninguém chorou quando o pequeno comerciante europeu fechava as portas porque não conseguia competir com o custo do crédito que só chegava barato para os gigantes. O que se vê é a queda da Gucci nas manchetes. O que não se vê são os milhares de negócios que morreram silenciosamente para que o dinheiro fácil chegasse às vitrines da Kering.

O mais irônico de tudo é que a indústria do luxo, que se vende como o último bastião da excelência, do artesanato, da tradição, se tornou exatamente aquilo que finge não ser: uma commodity financeira. O preço de uma bolsa Gucci hoje reflete menos o couro, a costura ou o design do que reflete expectativas de mercado, posicionamento de marca gerido por consultorias e ciclos de hype alimentados por influenciadores digitais que não sabem a diferença entre valor e preço. Quando você transforma tradição em ticker de bolsa, não reclame quando o mercado a trata como tal. A Gucci não precisa de um cessar-fogo no Oriente Médio. Precisa de um espelho.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.