Neil Kashkari, presidente do Fed de Minneapolis, fez essa semana o que dirigentes de banco central fazem melhor que qualquer ator de Hollywood: encenou perplexidade diante de uma consequência absolutamente previsível. A guerra no Irã, segundo ele, agrava a inflação americana, mas o mercado de trabalho permanece estável, e portanto o Fed tem espaço para manter a calma e os juros onde estão. É de uma sofisticação retórica admirável. Pena que desmonta no primeiro empurrão lógico.

Olha, vamos pelo básico. A inflação não é um fenômeno meteorológico que surge porque o Oriente Médio resolveu pegar fogo. Inflação é, sempre foi e sempre será o resultado de governos imprimindo mais moeda do que a economia real consegue absorver. A guerra no Irã não cria inflação; ela apenas expõe a inflação que já estava sendo fabricada na imprensora do Federal Reserve há anos, escondida atrás de eufemismos como "estímulo", "afrouxamento quantitativo" e "ancoragem de expectativas". Quando o petróleo sobe por causa do risco geopolítico, o cidadão americano percebe na bomba de gasolina aquilo que o banco central vinha jurando que não existia.

Me diz uma coisa: por que o emprego "segue estável" enquanto os preços disparam? Resposta simples, e nenhum economista do Fed vai te dar essa resposta porque ela destrói o castelo de cartas em que eles vivem. O emprego parece estável porque a moeda diluída ainda circula com força suficiente para manter empresas zumbis funcionando, gente trabalhando em projetos que só existem por causa do crédito barato, e contratações inchadas por trilhões que o Tesouro despeja na economia via déficit. É a janela quebrada da política monetária: enxerga-se o vidraceiro contratado, não se enxerga o padeiro que faliu porque a farinha triplicou.

E quem ganha com esse arranjo? Siga o dinheiro. Os bancos que recebem a liquidez primeiro, antes de a inflação contaminar os preços, ganham. As empresas conectadas ao complexo militar-industrial, que vivem de contratos federais inflados em moeda inflada, ganham. Os detentores de ativos financeiros, cujos portfólios sobem ao ritmo da emissão monetária, ganham. Perde a viúva da Pensilvânia que guardou economias em dólares e vê o poder de compra evaporar. Perde o jovem que tenta comprar a primeira casa num mercado dopado por juros artificiais. Perde, sempre, quem está mais distante do balcão onde o dinheiro novo entra na economia.

A guerra no Irã não é causa, é catalisador. Ela apenas acelera o desnudamento de uma fraude monetária que já estava em curso. O Fed gosta de aparecer como o adulto responsável na sala, mas é o piromaníaco com uniforme de bombeiro. Cada ciclo de expansão de crédito gera um boom artificial; cada boom artificial termina em bust inevitável; cada bust é seguido de novo socorro com mais expansão; e assim a espiral segue até que a moeda perca completamente a credibilidade. Kashkari finge não entender isso porque entender isso significaria pedir demissão e admitir que a instituição que ele dirige é o problema, não a solução.

O melhor desse teatro é a frase de para-choque que sempre acompanha esses pronunciamentos: "o mercado de trabalho segue estável". Tradução honesta: ainda não quebrou tudo, então finjam que está tudo bem. É a lógica do sujeito que pulou do décimo andar e, passando pelo quinto, declara entusiasmado que "até aqui está tudo sob controle". A queda não é a parte ruim. A parte ruim é o impacto. E o impacto, meu caro leitor, está sendo cuidadosamente adiado às custas de quem trabalha, poupa e produz, para preservar quem imprime, gasta e legisla.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.