Metade dos data centers americanos programados para entrar em operação em 2026 não vai existir no prazo, e talvez não exista nunca. Não é uma projeção pessimista de algum analista azedo, é o que os próprios números de construção revelam quando você para de ouvir press release e começa a contar megawatts. Das 16 gigawatts de capacidade previstas para este ano em 140 projetos, apenas 5 GW estão de fato em obras. O restante existe no PowerPoint, no comunicado à imprensa e no ego dos CEOs que anunciaram o futuro em conferências com palco iluminado. Entre o anúncio e o concreto literalmente armado, há um abismo chamado realidade logística, e a realidade não assina NDA.

O problema não é dinheiro. Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft, juntas, pretendem gastar mais de 650 bilhões de dólares em expansão de capacidade de IA neste ano. O dinheiro existe, o apetite existe, a narrativa existe. O que não existe é o transformador elétrico. Os componentes necessários para conectar um data center à rede, transformadores de alta potência, chaves seccionadoras, sistemas de bateria, têm prazo de entrega que hoje varia entre 52 e 86 semanas para as peças customizadas. Você anuncia o data center em janeiro de 2025, faz o pedido do equipamento elétrico e ele chega, se tiver sorte, no segundo semestre de 2026. E isso antes de qualquer atraso de obra, permissão municipal negada ou morador que resolveu processar porque o transformador faz barulho às três da manhã.

Quer dizer, há aqui uma ironia que vai além do constrangimento corporativo. As mesmas empresas que passaram anos defendendo cadeias de suprimento globais, vantagens comparativas internacionais e a sabedoria dos mercados integrados agora correm às pressas para importar transformadores da China porque a manufatura americana, depois de décadas de desindustrialização, simplesmente não produz o suficiente. As importações americanas de transformadores de alta potência saíram de menos de 1.500 unidades em 2022 para mais de 8.000 unidades em 2025. Ao mesmo tempo, os mesmos executivos que dependem dessa importação aplaudiram ou toleraram tarifas sobre produtos chineses. O resultado prático é que você paga mais caro pelo transformador que não é fabricado aqui e que você precisava ontem. Nenhuma política industrial de cima para baixo corrige em dois anos o que décadas de política de cima para baixo destruíram.

Olha, não é novidade que booms construídos sobre capital farto e expectativas exuberantes costumam encontrar o muro da física antes de encontrar o retorno sobre o investimento. Aconteceu com as ferrovias americanas do século XIX, aconteceu com a febre dos cabos de fibra óptica nos anos 2000, quando o mundo instalou capacidade suficiente para décadas e a maioria das empresas foi à falência antes de ver o tráfego preencher os tubos. A diferença é que desta vez a narrativa do "inevitável" foi vendida com tamanha intensidade, por tanta gente sofisticada, com tanto dinheiro de institucional por trás, que qualquer questionamento soava como luddismo. Quem levantou a mão para perguntar de onde vinha a eletricidade para alimentar esses centros foi tratado como alguém que não entendia a magnitude da revolução. Agora as perguntas que soavam ingênuas se tornaram os problemas que param as obras.

Me diz uma coisa: se para 2027 os projetos previstos excedem 25 gigawatts de nova capacidade, mas menos de 10 GW estão sendo construídos agora, o que você acha que vai acontecer com a promessa de 2027? A fila de transformadores não some porque o calendário virou. A rede elétrica americana não se expande porque um CEO anunciou capex bilionário numa conferência em Davos. A oposição local às obras não desaparece porque o progresso tecnológico é inevitável. A realidade física e logística opera em ritmo próprio, indiferente ao consenso dos analistas de Wall Street e ao otimismo estrutural dos relatórios trimestrais. O que está acontecendo agora com os data centers de 2026 já está, silenciosamente, sendo plantado nos data centers de 2027 e 2028. Quem prometeu a nuvem esqueceu de checar a tomada.

Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.