Dezessete centavos de dólar por ação. É este o tamanho do dividendo trimestral que a Halliburton acaba de declarar aos seus acionistas, e a notícia foi reproduzida com a mesma reverência burocrática com que se anuncia o boletim meteorológico. Olha, o número em si é irrelevante, repete há trimestres a mesma cadência, não move uma vírgula na vida do investidor de varejo nem ameaça o jantar do executivo de Houston. O que importa não está no comunicado, está no que o comunicado esconde sob a pátina de normalidade corporativa.

Quer dizer, uma empresa que fatura dezenas de bilhões anuais perfurando o subsolo de meio planeta distribui aos seus donos uma fração ínfima do que gera, e o resto vai para onde, exatamente? Parte vira recompra de ações para inflar artificialmente o preço do papel e engordar o pacote de remuneração variável dos executivos, parte financia a próxima rodada de fusões e aquisições que concentra ainda mais o setor em meia dúzia de mãos, e parte sustenta o exército de lobistas em Washington que garante que os contratos federais continuem fluindo com a regularidade de uma torneira mal vedada. O dividendo é a esmola que mantém o acionista pequeno calado enquanto o jogo grande acontece em outra mesa.

Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que uma empresa cujo nome se confunde com a história das invasões do Iraque, dos contratos sem licitação no Afeganistão, das reconstruções fantasmagóricas pagas com dinheiro do contribuinte americano, é apenas uma prestadora de serviços técnicos para o setor de energia? Halliburton é o exemplo paradigmático do casamento incestuoso entre Estado e corporação, daquela criatura híbrida que os economistas honestos do passado já identificavam quando alertavam sobre o capitalismo de compadrio. Quando um vice-presidente dos Estados Unidos sai da presidência da empresa para o segundo cargo mais poderoso do mundo e depois a empresa fatura bilhões em contratos de guerra, isto não é coincidência, é arquitetura.

E aqui está a parte que ninguém na grande imprensa econômica vai escrever, porque exige coragem e exige memória, duas coisas em falta nas redações. O dividendo modesto é justamente o disfarce. Empresas que dependem umbilicalmente do gasto público, da política externa belicista, dos subsídios velados via concessões em terras federais americanas, precisam parecer modestas, previsíveis, técnicas. Um dividendo polpudo chamaria atenção, abriria a janela errada, convidaria perguntas que ninguém quer responder sobre de onde vem o lucro e quem pagou a conta lá no final da cadeia, que invariavelmente é o contribuinte de algum lugar, geralmente vestido de farda ou de máscara de gás.

O setor de petróleo é o termômetro mais honesto da geopolítica mundial, e quem entende de termômetro entende que a febre está subindo. Tensões no Oriente Médio, recomposição das rotas energéticas após a guerra prolongada no leste europeu, China comprando reservas estratégicas como quem prepara despensa para inverno longo, Estados Unidos tentando reanimar a indústria de xisto que envergonhou o cartel árabe na década passada. Halliburton ganha em todos os cenários, e por isso pode dar-se ao luxo de pagar dividendos modestos. Quando você é fornecedor preferencial da máquina de guerra do hegemon, o resto é detalhe contábil.

O investidor brasileiro que olha para isto deveria aprender a lição que a notícia disfarça. Não existe livre mercado no petróleo, não existe concorrência genuína no setor de serviços petrolíferos, existe sim um cartel global onde Estados e gigantes se confundem e dividem o butim em proporções acertadas em jantares que jamais aparecerão em ata nenhuma. Os dezessete centavos por ação são o troco que cai do bolso desse arranjo, e ainda assim a imprensa especializada reproduz a notícia como se fosse o ato heroico de uma empresa generosa. A generosidade dos poderosos é sempre proporcional ao volume do que conseguiram esconder antes.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.