A notícia chegou seca, como costumam chegar as notícias que envergonham governos inteiros. A Hanwha Aerospace, conglomerado sul-coreano que fabrica desde obuseiros K9 até veículos blindados, confirmou que está em conversas com Berlim, Londres e outras capitais europeias para fechar pacotes bilionários de armamento. A demanda, segundo a própria empresa, explodiu por causa da guerra na Ucrânia e da fogueira permanente no Oriente Médio. Quer dizer, a Europa que durante três décadas pregou o desarmamento moral, a transição energética e o fim das fronteiras agora corre atrás de canhão coreano como turista atrasado correndo atrás de táxi.

Olha, há uma ironia histórica deliciosa aqui que ninguém na grande imprensa quer enxergar. A Coreia do Sul era, em 1953, um país arrasado, mais pobre que Gana, vivendo de ajuda americana. Hoje vende artilharia pesada para a pátria de Krupp, que inventou o canhão moderno. A Alemanha, que tinha a maior indústria bélica do planeta, terceirizou sua defesa, sucateou o Bundeswehr, fechou usinas nucleares para comprar gás russo e agora descobre, espantadíssima, que sem capacidade industrial própria você vira refém de quem ainda sabe fabricar coisa séria. Não é tragédia, é farsa. E a farsa custa caro.

Me diz uma coisa, quem está pagando essa festa? O contribuinte alemão, o contribuinte britânico, o contribuinte de meia Europa que viu sua poupança ser corroída por uma década de juros negativos e agora vê seu imposto financiar a recomposição de arsenais que jamais deveriam ter sido sucateados. A trilha do dinheiro é límpida: bancos centrais imprimiram trilhões durante a pandemia, governos gastaram esses trilhões em programas sociais que compraram votos, e quando o lobo apareceu na fronteira oriental do continente, descobriram que tinham gastado o dinheiro da defesa em propaganda verde. Agora pegam emprestado, no mercado, a juros que voltaram a morder, para comprar obuseiro de gente que nunca acreditou no conto de fadas.

Há uma lição econômica antiga que vale repetir, porque insiste em ser esquecida a cada geração. Capacidade industrial não se improvisa. Uma fábrica de munição não nasce em dois anos, exige décadas de cadeia produtiva, mão de obra qualificada, fornecedores especializados, conhecimento tácito que mora na cabeça do operário velho. Quando você desindustrializa em nome do ambientalismo de boutique, quando você fecha siderúrgica porque polui, quando você manda a indústria pesada para a China porque é mais barato, você não está poupando, está hipotecando soberania. O preço dessa hipoteca aparece exatamente no dia em que você precisa de canhão e não tem.

E os coreanos, esses sim, entenderam o jogo. Mantiveram serviço militar obrigatório, mantiveram indústria de defesa estatal e privada operando em escala, nunca acreditaram no canto da sereia do mundo sem fronteiras porque têm o regime mais demente do planeta a setenta quilômetros de Seul. A realidade educa quem se recusa a fantasiar. Enquanto europeu discutia pronome em comissão parlamentar, coreano fazia exercício de tiro real e padronizava plataforma de exportação. Resultado: Seul virou o quarto maior exportador de armas do mundo e a Europa virou cliente. Não é sorte, é consequência de levar a sério aquilo que a civilização sempre soube e que só os tolos esquecem.

O recado para o Brasil, que adora copiar o pior da Europa com vinte anos de atraso, deveria ser óbvio. País que desmonta sua indústria, que terceiriza sua defesa, que confunde pacifismo com desarmamento e que entrega sua soberania energética em troca de aplausos em conferência climática, vai descobrir, mais cedo ou mais tarde, que paz sem força é só o intervalo entre humilhações. Os alemães estão aprendendo agora, em euros, e com sotaque coreano.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.