A Havas anunciou, com aquela solenidade típica de comunicado de bolsa, que recomprou 3.827 ações próprias dentro do programa de buyback. Parece manobra técnica, contábil, quase entediante. Mas a recompra de ações é uma das ferramentas mais elegantes já inventadas para enfeitar balanço sem produzir absolutamente nada de novo. Não há um cliente novo, um produto novo, uma campanha brilhante por trás disso. Há, apenas, dinheiro do caixa sendo usado para comprar pedaços da própria empresa, reduzindo o número de ações em circulação e, por mágica matemática, inflando o lucro por ação. O sujeito não cresceu, ele apenas dividiu o mesmo bolo em fatias menores e disse que cada fatia agora é maior.

Olha, o discurso oficial é sempre o mesmo, devolver valor ao acionista, sinalizar confiança, otimizar a estrutura de capital. Tradução honesta, o conselho não tem ideia melhor para fazer com o caixa do que comprar a si mesmo. Quando uma empresa de comunicação, cuja matéria-prima é a criatividade humana, conclui que o melhor uso do dinheiro é virar cliente do próprio papel, alguma coisa está errada na cabeça de quem comanda. Ou pior, está exatamente certa, e o objetivo nunca foi inovar, foi sustentar a cotação durante o período em que executivos exercem opções, recebem bônus indexados ao preço da ação e vendem suas próprias posições para o varejo entusiasmado pela alta artificial.

Me diz uma coisa, quem ganha de verdade com esse arranjo? Siga o dinheiro. Os grandes acionistas, que reduzem sua exposição num mercado aquecido pela própria empresa. Os executivos, cujos pacotes de remuneração estão atrelados ao preço da ação e ao lucro por ação, ambos turbinados sinteticamente pelo buyback. Os bancos de investimento, que faturam taxas para operar a recompra. E o pequeno investidor, esse fica com a sensação calorosa de que sua ação subiu, sem perceber que comprou um pedaço de empresa que está literalmente se autocanibalizando para parecer mais saudável do que é.

Existe ainda um detalhe que ninguém comenta nas reuniões de resultados, dinheiro gasto recomprando ação é dinheiro que não foi gasto contratando, pesquisando, expandindo, pagando dividendo de verdade ou reduzindo dívida. É escolha. E a escolha de uma agência de publicidade europeia, num momento em que a indústria publicitária inteira está sendo devorada por inteligência artificial, plataformas digitais e novos formatos, é gastar o caixa comprando a si mesma. Equivale a um restaurante vazio cuja gerência decide que a melhor estratégia é o dono jantar lá toda noite e pagar a conta. Move-se a contabilidade, não move-se o negócio.

O capitalismo de gravata adora esse tipo de operação porque ela tem a virtude estética da sofisticação sem o incômodo do risco real. Empreender de verdade exige descobrir o que o cliente quer antes que ele saiba, alocar capital em apostas que podem fracassar, suportar a humilhação do erro público. Recomprar ação é o oposto, é certeza administrada por consultores, com aprovação do conselho, comunicado pronto para a imprensa especializada repetir sem questionar. Não há ousadia, há gestão de percepção. E gestão de percepção, no longo prazo, é o que separa empresas que duram séculos das que viram estudo de caso em escola de negócios sobre como destruir valor com aparência de criar.

O leitor atento já notou o padrão. Toda vez que um setor enfrenta disrupção tecnológica profunda, e a publicidade global enfrenta uma das maiores reorganizações da sua história, as empresas estabelecidas tendem a se voltar para dentro, recomprando ações, fazendo fusões defensivas, comprando concorrentes para parecer maiores. É o reflexo do animal acuado, que quando não sabe para onde correr, gira em círculos no mesmo lugar. A 3.827 ações da Havas são pequenas em si, mas são sintoma de uma doença grande, a preferência da elite corporativa pela engenharia financeira sobre a criação genuína de riqueza. E essa conta, como todas as contas que ninguém quer pagar, sempre acaba chegando para quem confiou que aquilo era investimento sério.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.