A HCA Healthcare, gigante hospitalar com mais de 180 hospitais e centenas de clínicas espalhadas pelos Estados Unidos e Reino Unido, anunciou a aquisição do College of Health Care Professions, uma rede de faculdades técnicas que forma enfermeiros, técnicos radiológicos, flebotomistas e toda a tropa de apoio que mantém um hospital funcionando. A operação foi vendida ao mercado como solução criativa para a escassez de mão de obra no setor de saúde. Olha, pode até ser. Mas quando o comprador é também o empregador final dos formandos, é hora de parar e pensar com calma sobre o que realmente está acontecendo aqui.

A narrativa oficial é encantadora: faltam profissionais, então o hospital vai formar os seus próprios. Eficiência vertical, integração de cadeia, redução de custos, blá blá blá. O que não se diz, e raramente se diz, é que essa escassez não caiu do céu. Ela é o produto direto de décadas de regulação federal que sufocou a oferta de profissionais de saúde, de um sistema de licenciamento que funciona como cartel medieval protegendo quem está dentro contra quem quer entrar, e de subsídios estudantis que inflaram artificialmente o custo da formação técnica até patamares grotescos. O hospital agora compra a faculdade porque o Estado, com a ajuda das corporações profissionais, transformou formar gente em saúde numa operação que só quem tem caixa bilionário consegue tocar.

E aqui a trilha do dinheiro fica interessante. O College of Health Care Professions, como praticamente toda escola técnica americana, vive do dízimo dos empréstimos estudantis federais. Quem paga o curso do aluno, na ponta, é o contribuinte que assina os papéis de garantia daqueles financiamentos que jamais serão integralmente quitados. O hospital adquire a escola, a escola continua recebendo o dinheiro do governo, o aluno continua endividado por décadas, e o formando vai trabalhar exatamente onde o dono da escola precisa. É um circuito fechado de extração de recurso público com aparência de empreendedorismo privado. Adam Smith chamaria isso pelo nome certo se estivesse vivo, e o nome não seria livre mercado.

O que se vê é a manchete bonita sobre a inovação corporativa resolvendo o problema da escassez. O que não se vê é o pequeno empresário que jamais conseguiria abrir uma escola técnica de saúde porque as barreiras regulatórias são impossíveis para quem não tem advogado de Wall Street. O que não se vê é o aluno que entra numa faculdade cuja missão pedagógica agora se confunde com a necessidade de quadros do empregador dono. O que não se vê é a competição que deixou de existir porque a integração vertical, num ambiente regulado a sete chaves, não amplia o mercado, fecha-o. Isto não é capitalismo. É feudalismo corporativo com selo de aprovação federal.

O Brasil que observa isto de longe deveria prestar atenção, porque o mesmo modelo já está rodando aqui sob outros nomes. Redes de ensino superior compradas por fundos que também controlam planos de saúde, hospitais que financiam residências em troca de fidelização, sistema S que forma trabalhadores que vão alimentar exatamente as empresas que financiam o sistema S. Tudo muito eficiente, tudo muito moderno, tudo muito longe daquilo que um mercado livre de verdade produziria. A diferença entre o livre mercado e o capitalismo de compadrio é quem paga a conta no final, e a resposta sempre, sempre, sempre é a mesma: você.

Quando o hospital compra a escola que forma seus empregados, não estamos diante de inovação. Estamos diante do velho casamento entre capital concentrado e Estado regulador, com o cidadão pagando o buquê da noiva.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.