Olha o roteiro. Durante anos, vendeu-se ao investidor sofisticado a fábula de que financiar processos judiciais era a nova fronteira do retorno descorrelacionado, aquele santo graal que toda mesa de alocação procura como adolescente procura sentido na vida. Bastava colocar dinheiro num portfólio de ações judiciais, esperar os tribunais cuspirem indenizações, e voilà, retorno de dois dígitos enquanto a bolsa fazia drama. O problema, claro, é que tribunal não é planilha. E agora que os retornos prometidos viraram pó, entram em cena os fundos de hedge, comprando os ativos com desconto cavalar daqueles que estão sangrando para sair. Quer dizer, exatamente o ciclo de sempre, só que vestido de inovação.

Me diz uma coisa. Quando você ouve falar em distressed valuations, em fundos especializados aparecendo de repente com apetite voraz, você está vendo o quê? Está vendo o mecanismo mais antigo do capitalismo financeiro funcionando como reloginho suíço. Alguém entrou na euforia pagando caro, alguém vai sair no pânico vendendo barato, e no meio existe sempre uma classe de operadores que vive justamente desse intervalo entre a ilusão e o desencanto. Isso não é falha do mercado, é o mercado fazendo o que mercado faz: corrigir. O escândalo, se existe algum, é os reguladores e os apologistas terem vendido litigation finance como se fosse um produto seguro de prateleira, quando sempre foi aposta opaca em desfechos judiciais.

E aqui mora a parte que ninguém quer dizer em voz alta. Esse mercado só existe na escala atual porque os sistemas judiciais ocidentais viraram cassinos onde sentenças bilionárias caem do céu, indenizações punitivas explodem em escala industrial, e a engenharia processual permite que terceiros financiem litígios em troca de uma fatia do despojo. Você criou um ecossistema onde processar virou ativo financeirizável, onde escritórios de advocacia operam como hedge funds disfarçados, e onde o cidadão comum paga a conta via judicialização generalizada da vida econômica. O custo invisível disso, o que não aparece na manchete da Bloomberg, é a empresa que não foi fundada, o produto que não foi lançado, o emprego que não foi criado porque o risco jurídico nos Estados Unidos virou intransponível.

Siga o dinheiro e a história fica mais clara ainda. Quem ganhou na fase de euforia? Os gestores que cobraram taxas gordas captando recursos de fundos de pensão, family offices e endowments universitários, prometendo retorno absoluto descorrelacionado. Quem perde agora? Os mesmos cotistas que entraram tarde e estão sendo forçados a aceitar haircuts grotescos para encontrar liquidez. Quem ganha na próxima fase? Os hedge funds entrando agora a preço de banana, que vão ordenhar os processos remanescentes e embolsar o spread entre o desespero do vendedor e o desfecho real dos tribunais. É a velha rotação dos abutres, e ela é tão previsível que dava para programar em Excel.

A lição, se alguém quiser aprender, é que toda inovação financeira que promete retorno descorrelacionado em escala é, no fundo, alavancagem disfarçada sobre alguma anomalia institucional. No caso, a anomalia é um Judiciário hipertrofiado que transformou litígio em loteria. Enquanto a anomalia durar, sempre haverá engenheiros financeiros prontos a empacotar a coisa, vender ao incauto, e depois comprar de volta no fundo do poço. O ciclo não para porque o desenho institucional que o alimenta nunca foi tocado. Você pode regular o produto financeiro até a exaustão, exigir prospectos do tamanho da bíblia, criar comitês de risco com nome em latim, mas enquanto a fonte do retorno for a litigiosidade artificial de uma sociedade que esqueceu como resolver disputas sem advogado, o ciclo se repete.

No fim das contas, a notícia não é que os hedge funds estão comprando ativos de litigation finance no chão. A notícia é que existe um mercado robusto o suficiente para haver chão, comprador e cadáver. Isso diz tudo sobre onde a economia real foi parar quando o capital descobriu que processar dá mais dinheiro que produzir.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.