Pete Hegseth subiu ao palco e fez o que nenhum secretário de Defesa americano teve coragem de fazer com todas as letras nas últimas três décadas: separou os adultos das crianças. De um lado, elogiou Tóquio, Seul e Camberra por estarem efetivamente abrindo a carteira, comprando capacidade militar real e tratando a própria defesa como assunto de gente grande. Do outro, despejou na cara dos europeus o constrangimento que eles fingem não enxergar há gerações: o cobertor de segurança que cobre Berlim, Paris e Madri há setenta anos é tecido com imposto pago por um soldador de Ohio e um caminhoneiro do Arizona.

O arranjo é tão velho que virou paisagem, e por isso ninguém na Europa parecia constrangido. Funciona assim: você terceiriza a defesa do seu continente para uma superpotência do outro lado do oceano, economiza os bilhões que deveriam ir para tanques e mísseis, e gasta essa sobra em estado de bem-estar generoso, aposentadoria aos sessenta, seis semanas de férias e ministérios de gênero. Depois, em conferência climatizada, faz discurso sobre soberania europeia e autonomia estratégica. É a definição operacional de viver de favor enquanto se posa de anfitrião.

Quando se segue a trilha do dinheiro, a hipocrisia fica indecente. A Alemanha passou décadas abaixo da meta de 2% do PIB em defesa, meta que ela mesma assinou. Enquanto isso, financiou gasoduto russo, sustentou indústria com energia barata vinda de quem ameaçava seus vizinhos, e mandou capacete para a Ucrânia quando a guerra começou. O dinheiro que faltava para munição sobrava para subsídio verde e burocracia em Bruxelas. Toda escolha tem custo, e o custo de não armar o continente foi pago em sangue ucraniano e em paciência americana que finalmente esgotou.

Os asiáticos entenderam a lição antes porque vivem com a China respirando no pescoço e não têm o luxo de filosofar sobre paz perpétua. Japão dobrou orçamento de defesa, Coreia produz suas próprias plataformas, Austrália entrou no clube dos submarinos nucleares. Não fizeram isso por amor ao Pentágono, fizeram porque entenderam uma verdade elementar que os europeus se recusam a encarar: ninguém defende o seu quintal melhor do que você mesmo, e terceirizar a sobrevivência é o primeiro passo para deixar de existir como nação livre.

O recado de Hegseth não é militarismo, é contabilidade. Quando um governo gasta o dinheiro que não tem para sustentar aliados que poderiam pagar a própria conta, ele está confiscando renda do seu povo para subsidiar o conforto de outros povos. Isso tem nome, e nenhum dos nomes é bonito. A Europa vai descobrir, com a delicadeza de um despertador às quatro da manhã, que dependência estratégica é a forma mais cara de soberania imaginária que o século vinte inventou.

Quem quiser cadeira na mesa dos grandes que traga a própria cadeira, a própria comida e, sobretudo, a própria arma. O resto é folclore diplomático.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.