A Helios Towers fechou o primeiro trimestre de 2026 com crescimento sólido de receita, expansão de margem de EBITDA ajustado e mais alguns milhares de torres operando em mercados que, segundo o catecismo das organizações multilaterais, deveriam estar afundados em miséria irremediável. República Democrática do Congo, Tanzânia, Gana, Senegal, Madagascar, África do Sul. Os mesmos países que recebem há décadas pacotes de "ajuda ao desenvolvimento" travestidos de generosidade ocidental e que, milagrosamente, só começam a deslanchar quando alguém aparece disposto a investir capital privado e cobrar pelo serviço prestado.

Repare na mecânica do negócio, porque ela é deliciosamente subversiva. A Helios constrói torre, aluga espaço para operadoras concorrentes dividirem a mesma estrutura, reduz o custo de cobertura e empurra a internet móvel para regiões onde o Estado local jamais conseguiu nem entregar água encanada. Não há ministro coordenando, não há plano quinquenal, não há comitê de governança climática decidindo onde a próxima antena vai subir. Há contrato, há preço, há risco assumido por quem ganha quando acerta e perde quando erra. E o resultado, escandalosamente, é cobertura crescendo em ritmo que envergonha qualquer programa estatal de inclusão digital já tentado em qualquer canto do planeta.

Enquanto isso, a Telebras brasileira segue como aquele primo bêbado da família que todo mundo finge não conhecer no casamento: balanço deficitário, satélite caro, conectividade rural patética, e a mesma encenação de que precisa de mais aporte do Tesouro para finalmente cumprir a missão social. Já cumpriu, na verdade. A missão é manter cargo, contrato, fornecedor amigo e a ilusão de soberania tecnológica. A diferença entre uma empresa que opera em risco e uma que opera com dinheiro do contribuinte aparece exatamente aqui: uma entrega torre, a outra entrega comunicado de imprensa.

O detalhe que ninguém quer comentar é o seguinte: parte relevante do crescimento da Helios vem de mercados onde o capital chinês construiu a primeira camada de infraestrutura via empréstimos predatórios, deixou países endividados até o pescoço, e abriu espaço para que empresas ocidentais privadas entrassem por cima oferecendo eficiência operacional. Siga o dinheiro e você vai ver que o jogo africano de hoje é uma disputa entre Estados credores que querem capturar concessões e operadores privados que querem fluxo de caixa contratual. Adivinhe quem entrega serviço melhor para o consumidor final que mora numa aldeia do Lago Tanganica.

O Brasil, fiel à sua vocação de tropeçar no próprio cadarço, segue exportando o pior modelo possível para a África: BNDES financiando obra de empreiteira amiga, ministério das Relações Exteriores transformado em agência de viagem ideológica, e zero presença de empresa brasileira competitiva no setor de torres, que era um nicho natural para nós dada a experiência da TIM, Vivo e Claro com cobertura em país continental. Perdemos o bonde por uma razão simples e dolorosa: empresa brasileira aprendeu que é mais lucrativo mamar no edital do que competir em mercado africano sem subsídio.

O resultado trimestral da Helios não é uma notícia financeira, é uma denúncia silenciosa. Cada antena erguida é a prova viva de que pobreza estrutural não é destino, é consequência de arranjos políticos que impedem o capital de fazer o que ele faz quando deixam: gerar serviço, gerar emprego, gerar imposto e, de quebra, gerar dignidade. A África não precisa de mais cúpula climática, mais relatório do PNUD, mais empréstimo concessional do Banco Mundial. Precisa que parem de atrapalhar quem está disposto a construir torre, vender minuto e cobrar pela conta. O resto é folclore de ONG.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.