Olha, a notícia chega vestida de comunicado corporativo morno: a Hexaware, gigante indiana de serviços de tecnologia, anunciou a aquisição da consultoria britânica CPS. O mercado bocejou, o investidor médio rolou a tela, e a imprensa especializada repetiu o release com a criatividade de um estagiário cansado. Mas quem olha além do título percebe que estamos diante de um capítulo daquilo que move a economia real há pelo menos uma década, a consolidação acelerada do setor de consultoria e integração de sistemas nas mãos de meia dúzia de jogadores globais. E consolidação, qualquer um que tenha lido três livros de economia sabe, raramente é boa notícia para o consumidor final.

Quer dizer, a história aqui é a de sempre, só que com sotaque novo. Empresa indiana, capitalizada por fundos que pastam em Londres e Nova York, compra firma britânica de nicho para acoplar sua carteira de clientes corporativos e governamentais europeus. Ninguém constrói consultoria do zero quando pode comprar uma com trinta anos de relacionamento institucional e contratos públicos engatilhados. É mais barato adquirir o acesso do que conquistá-lo. E acesso, no mercado de tecnologia corporativa, vale infinitamente mais do que código, talento ou inovação. O comprador não está adquirindo uma empresa, está adquirindo uma agenda de telefones.

Me diz uma coisa, quando um grupo desses absorve mais um pedaço do tabuleiro, quem é que paga a conta no fim? O cliente corporativo que vai negociar com menos fornecedores, o contribuinte britânico cujo governo terceiriza sistemas críticos para um oligopólio cada vez mais concentrado, e o profissional de tecnologia local que vê seu mercado de trabalho ser redesenhado por decisões tomadas em Mumbai, Bangalore ou nas salas climatizadas de algum private equity. O discurso oficial fala em sinergia, expansão de capacidades, fortalecimento da oferta. A tradução honesta é margem maior, concorrência menor, preço menos sensível à pressão do comprador. Ninguém compra empresa para reduzir o próprio poder de mercado.

E aqui aparece o ponto que ninguém quer tocar, porque mexe com a vaca sagrada da globalização vendida no PowerPoint. A consolidação do setor de serviços de tecnologia não acontece num vácuo, ela é alimentada por dinheiro barato que durante anos circulou pelo planeta caçando ativos com receita previsível. O que parece movimento orgânico de mercado é, em boa parte, efeito colateral de décadas de juros artificialmente baixos, de bancos centrais imprimindo certeza para quem já era grande e empurrando os pequenos para a margem. Concentração de capital em poucas mãos não é virtude do capitalismo, é sintoma de uma economia onde o dinheiro perdeu o pudor de escolher seus prediletos.

Há ainda o detalhe geopolítico que os analistas de gravata fingem não enxergar. Capital indiano comprando estrutura britânica é, sim, uma reviravolta histórica deliciosa para quem aprecia ironia, o império colonizado de ontem comprando os escritórios do colonizador de antigamente. Mas é também a constatação prática de que o eixo econômico mundial está sendo redesenhado em silêncio, sem manchete, contrato a contrato, aquisição a aquisição. Enquanto a Europa discute pronome neutro e a América Latina debate piso salarial de motorista de aplicativo, indianos e árabes compram a infraestrutura digital do mundo desenvolvido com cheque assinado. Quem decide o que é progresso geralmente é quem está pagando a conta, e a conta agora tem destinatário diferente do que o ocidente acostumou-se a imaginar.

No fim, o que sobra é a pergunta que ninguém faz nas conferências de investimento. Esse modelo de consolidação infinita, alimentado por crédito artificial e legitimado por um discurso técnico que esconde sua natureza política, é mesmo o melhor arranjo possível para a produtividade humana? Ou estamos, mais uma vez, confundindo o crescimento de algumas planilhas com o progresso de uma civilização? A resposta vai chegar, como sempre chega, na próxima recessão. Quando o crédito secar, quando os juros voltarem ao patamar que a realidade exige, e quando o tabuleiro consolidado começar a ranger sob o peso das próprias dívidas, descobriremos que a festa do M&A custou bem mais caro do que o release de imprensa deixou transparecer.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.