As primeiras conversas diretas entre Israel e Líbano desde 1993 aconteceram nesta terça-feira no Departamento de Estado, em Washington, com toda a pompa que a diplomacia americana sabe fabricar. Marco Rubio chamou de "oportunidade histórica". A embaixadora libanesa compareceu, o embaixador israelense compareceu, os assessores americanos compareceram. Só não compareceu quem de fato decide o que acontece no sul do Líbano. O Hezbollah não apenas ficou de fora; antes mesmo de a reunião começar, Naim Qassem, secretário-geral do grupo, chamou as negociações de "fúteis" e exigiu que Beirute abandonasse a mesa. Um oficial sênior do grupo foi ainda mais direto: o Hezbollah não acatará nenhum acordo que saia dessas conversas. Quer dizer, os Estados Unidos estão mediando um tratado de paz entre um país e um pedaço de outro país que não responde ao governo que está sentado na cadeira.
Há algo de tragicamente familiar nesse teatro. Washington adora o ritual da "negociação histórica", essa liturgia diplomática em que secretários de Estado posam para fotos, apertam mãos e declaram que "estamos trabalhando contra décadas de história e complexidades", como Rubio efetivamente disse. Mas a pergunta que nenhum repórter credenciado faz é a mais elementar de todas: com quem exatamente se está negociando? O governo libanês não controla o sul do próprio território. Não possui o monopólio da força dentro das suas fronteiras. O exército libanês é uma ficção institucional comparado ao arsenal do Hezbollah. Negociar com Beirute o desarmamento do Hezbollah é como negociar com o síndico do prédio a saída de um inquilino armado que já avisou que não vai sair.
O contexto geopolítico explica o timing melhor do que qualquer discurso sobre paz. Os Estados Unidos estão em confronto aberto com o Irã desde a morte de Khamenei em março, mantêm bloqueio a portos iranianos e precisam de vitórias diplomáticas que justifiquem o custo político e financeiro da escalada. Israel quer o desarmamento do Hezbollah como pré-condição para qualquer acordo, o que é perfeitamente racional do ponto de vista israelense e perfeitamente impossível do ponto de vista prático. A Arábia Saudita, por sua vez, já está conversando com Teerã sobre "redução de tensões", o que em linguagem diplomática do Golfo significa "vamos dividir as esferas de influência enquanto os americanos estão distraídos". Siga o dinheiro e os interesses reais, e a "oportunidade histórica" de Rubio revela-se pelo que é: uma jogada de posicionamento numa guerra mais ampla contra a influência iraniana no Levante, embalada em papel de presente chamado "paz".
Me diz uma coisa: quando na história da diplomacia moderna um acordo de paz funcionou sem que todas as partes beligerantes estivessem na mesa? Os Acordos de Oslo, que também foram celebrados como "históricos", produziram décadas de frustração precisamente porque as forças reais no terreno não se sentiam vinculadas ao que foi assinado em gramados bem cuidados. A diferença entre um tratado de paz e uma declaração de intenções é simples: o tratado muda o comportamento dos armados, a declaração muda o humor dos jornalistas. O que aconteceu em Washington nesta terça foi uma declaração de intenções entre partes que não controlam o conflito, aplaudida por uma potência que precisa do espetáculo mais do que do resultado.
O mais revelador, porém, não é o que aconteceu dentro do Departamento de Estado, mas o que Qassem disse do lado de fora. Ao classificar as negociações como "concessão gratuita" a Israel e aos Estados Unidos, o líder do Hezbollah não estava apenas rejeitando a mesa; estava demonstrando quem de fato exerce soberania sobre o território em disputa. Quando um grupo armado não-estatal pode vetar a política externa de um Estado soberano e declarar publicamente que ignorará qualquer acordo firmado por esse Estado, o que você tem não é um país com um problema de milícia. O que você tem é uma milícia com um problema de país. Enquanto essa equação não mudar, todas as "oportunidades históricas" do mundo não passam de sessões de fotos para arquivo morto.
Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.