Atiraram perto da Casa Branca de novo, e a imprensa americana já está fazendo o que faz melhor depois de cada incidente: contar a história dos atentados anteriores como se fosse um documentário do History Channel, com narrador de voz grave e câmera lenta sobre fotos de Lincoln, Garfield, McKinley, Kennedy, Reagan, Trump. A liturgia é conhecida. Primeiro o choque, depois o luto encenado, depois o painel de especialistas, e por fim o pedido inevitável de mais dinheiro, mais agentes, mais perímetro, mais tecnologia, mais Estado. O cidadão americano, que já paga uma das contas de segurança mais caras da história da humanidade, é convidado a abrir a carteira mais uma vez para comprar a ilusão de que desta vez vai funcionar.
Olha, há algo profundamente cômico em ver Washington discutindo "protocolos de segurança" como se o problema fosse de engenharia. O Serviço Secreto americano tem orçamento bilionário, treinamento de primeira, drones, snipers, cães farejadores, vidros à prova de bala, comitivas blindadas, e ainda assim qualquer maluco com determinação suficiente atravessa o teatro. Reagan levou tiro a metros do carro presidencial. Kennedy foi morto em desfile aberto depois de décadas de "lições aprendidas". Trump levou bala na orelha num comício recente com perímetro supostamente blindado. A pergunta que ninguém faz é a única que importa: se gastar mais resolvesse, já estaria resolvido há cinquenta anos.
O que o cidadão vê é a passeata dos agentes de terno preto e o helicóptero sobrevoando a área. O que ele não vê é a fatura. Cada novo "protocolo" significa orçamento adicional aprovado sem debate, contratos com empresas privadas de segurança que misteriosamente sempre são as mesmas, fornecedores de equipamento que faturam alto vendendo para o Tio Sam pelo dobro do preço de mercado, consultores ex-funcionários do próprio Serviço Secreto agora terceirizados de volta como especialistas. O atentado é tragédia para a vítima e oportunidade de negócio para o ecossistema. Siga o dinheiro e o roteiro fica claro.
Tem ainda o efeito político, que é o mais perverso. Cada incidente é usado para justificar expansão de poder muito além da proteção do presidente. Mais vigilância, mais escutas, mais controle de redes sociais, mais checagem de quem fala o quê, mais delimitação de zonas onde o cidadão comum não pode pisar. O atentado vira pretexto para militarizar a capital, restringir o direito de manifestação, classificar como ameaça quem critica o ocupante do cargo. A bala que erra o presidente acerta a liberdade do resto do país, e essa baixa nunca aparece no relatório oficial.
Quer dizer, há uma sabedoria antiga que Washington insiste em ignorar: nenhum aparato de segurança humano consegue blindar quem decidiu se expor publicamente ao escrutínio de trezentos milhões de pessoas. O presidente americano é, por definição, alvo. Sempre foi e sempre será, e nenhuma quantidade de tecnologia muda isso. O que muda é a desculpa para crescer o Estado em torno dele. Cada vidro à prova de bala adicional vem acompanhado de três regulamentos novos para o cidadão pagador de impostos, e ninguém repara no segundo movimento porque está olhando para o primeiro.
A verdade dura é que a história dos atentados presidenciais americanos não é uma história de falha de segurança. É uma história de como cada falha foi convertida em ganho institucional para a máquina que falhou. O Serviço Secreto cresce a cada erro. O FBI cresce a cada erro. O Departamento de Segurança Interna nasceu de um erro maior ainda, em setembro de 2001, e nunca mais devolveu um centímetro de poder ao cidadão. Quando a falha é o caminho para mais orçamento, falhar passa a ser, digamos assim, estruturalmente conveniente. E é por isso que o tiro de ontem vai pagar o salário do consultor de amanhã.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.