Cento e quarenta bilhões de dólares de Hong Kong, ou quase dezoito bilhões de dólares americanos, foi o que as ofertas públicas iniciais movimentaram na cidade só em 2026, segundo o próprio secretário de Finanças, Paul Chan, em seu blog semanal. A cifra recoloca a ilha no topo do ranking global de IPOs, à frente de Nova York, Londres, Frankfurt e da Bolsa de Xangai. Quem acompanhou os últimos cinco anos lembra do coro funerário: Hong Kong estava acabada, sufocada por Pequim, esvaziada pela fuga de capitais, condenada à irrelevância. E, no entanto, lá está ela, novamente bombeando capital privado em volumes que envergonham praças "livres" do hemisfério ocidental. Quer dizer, alguma coisa não bate na narrativa.

O que não bate é simples: capital não atende a manchete, atende a incentivo. Hong Kong mantém imposto corporativo em torno de 16,5%, sem imposto sobre ganho de capital, sem imposto sobre dividendo, sem imposto sobre herança, com câmbio livre e arbitragem comercial reconhecida internacionalmente. Compare com qualquer democracia ocidental que se ache "amiga do investidor" e a mágica desaparece. Em Nova York, a SEC transformou o registro de uma oferta pública num purgatório jurídico de dezoito a vinte e quatro meses. Em Londres, a City virou museu enquanto a regulação anti-greenwashing decide quem pode listar e quem não pode. Em São Paulo, o investidor reza para que a próxima MP não recategorize seu fundo às três da manhã de domingo. O dinheiro olha tudo isso, faz a conta e compra passagem para Ásia.

Olha, há a tentação confortável de dizer que Hong Kong é "exceção" porque é porto, porque é entreposto, porque é vitrine de Pequim. Mentira piedosa. Hong Kong é o que sobrou de uma ideia que o ocidente abandonou: a de que a função do governo é proteger contrato, garantir propriedade e sair do caminho. Cada bilhão levantado naquele mercado é um voto silencioso contra o modelo regulatório europeu, contra o ativismo da SEC, contra a CVM brasileira que confunde fiscalização com curadoria moral. O empresário chinês, o family office indonésio, o fundo soberano do Golfo, todos estão dizendo a mesma coisa sem precisar abrir a boca: prefiro listar onde me deixam respirar.

E aqui entra a parte que o noticiário econômico finge não ver. Enquanto o Brasil discute taxar offshore, taxar fundo exclusivo, taxar dividendo, taxar bilionário, taxar até a sombra do empresário, dezessete vírgula nove bilhões de dólares estão sendo precificados, alocados e distribuídos a milhares de quilômetros daqui, em uma cidade do tamanho da Grande Vitória. Esse capital poderia estar financiando refinaria em Suape, mineradora em Carajás, biotech em Campinas. Não está. Está abrindo escritório em Central, contratando advogado em Mong Kok e pagando bônus em Causeway Bay. O que se vê é a manchete da Bloomberg; o que não se vê é a fila de empresas brasileiras que desistiram de abrir capital no país e encolheram silenciosamente sob o peso da insegurança jurídica.

A lição é antiga e ninguém quer aprender porque aprender custa poder. Toda vez que um governo ocidental aperta o parafuso, jura que o capital "não tem para onde ir", que "vai pagar porque é obrigação social", que "o mercado vai entender". O mercado nunca entende, o mercado se muda. Hong Kong é simplesmente o endereço atual da mudança. Amanhã pode ser Dubai, depois pode ser Riad, depois Singapura de novo. O endereço varia; o princípio, não. Capital flui para onde é tratado como aliado e foge de onde é tratado como suspeito.

Resta a pergunta que o Ministério da Fazenda em Brasília jamais fará em voz alta, e que a Faria Lima sussurra entre uma reunião e outra: por que continuamos punindo quem investe e premiando quem regula? A resposta está na cifra de Paul Chan. Dezessete vírgula nove bilhões de razões para repensar tudo, e zero disposição política para fazê-lo. Capital não discute, capital se despede.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.