Há uma fraude intelectual de quase quatro séculos que sustenta tudo o que existe de pior na vida pública moderna, e ela merece ser desmontada na bancada de anatomia. O argumento é conhecido: o homem em estado de natureza viveria em guerra de todos contra todos, vida solitária, pobre, suja, brutal e curta, e por isso precisaria entregar a um soberano absoluto o monopólio da força em troca de paz. Parece razoável até você fazer a única pergunta que importa, a pergunta que o cortesão treinado para servir ao poder evita como vampiro evita alho. Se o homem é tão mau que precisa de um soberano para contê-lo, de que matéria-prima é feito o soberano? Anjo caído do céu? Marciano? Ou é também um homem, com as mesmas paixões, os mesmos cálculos, a mesma capacidade de fazer mal, agora porém armado com o monopólio legal da violência e dispensado de prestar contas a qualquer um?
O truque é grosseiro, mas funcionou porque foi vendido com erudição. Você toma um conjunto de criaturas supostamente incapazes de conviver sem se matar e, por algum passe de mágica institucional, declara que um pequeno subconjunto delas, ao receber títulos pomposos e tronos confortáveis, adquire virtudes que faltam a todas as outras. Quer dizer, o açougueiro que ontem era perigoso porque vivia sem regras hoje se tornou guardião confiável porque vive acima das regras. É o mesmo sujeito, com os mesmos vícios, e agora com poder muito maior para exercê-los. Você não resolveu o problema da violência humana, apenas centralizou e legalizou. Trocou o risco difuso de ser roubado por um vizinho pelo risco concentrado de ser roubado, conscrito, censurado e impostado por um aparato que carrega bandeira e canta hino enquanto faz a mesma coisa em escala industrial.
Olha, a contradição não é detalhe acadêmico, é a viga podre que sustenta o edifício inteiro do estatismo contemporâneo. Quando o burocrata moderno explica que o mercado precisa ser regulado porque os homens são gananciosos, ele esquece de mencionar que os reguladores também são homens, que também são gananciosos, e que agora estão gananciosos com poder coercitivo nas mãos e sem competição capaz de limitá-los. Quando o intelectual de subsídio defende que a propriedade privada precisa ser limitada porque os ricos abusam, ele omite que o Estado que vai redistribuir é operado por outros homens, igualmente capazes de abuso, agora com a vantagem adicional de que ninguém pode demiti-los, processá-los em pé de igualdade ou recusar seus serviços. É o golpe perfeito: convencer a vítima de que a única salvação contra ladrões é entregar tudo a um ladrão maior e mais bem vestido.
E aí siga o dinheiro, sempre siga o dinheiro, porque é nesse caminho que as belas teorias revelam suas verdadeiras motivações. Quem ganha com a narrativa de que o homem sem Estado é fera? Os homens que vivem do Estado. Quem ganha com a tese de que sem soberano absoluto há caos? Os candidatos a soberano. Toda filosofia política que termina pedindo mais poder para alguma instância acima de você está, na prática, defendendo o emprego de alguém. Os contratualistas de hoje são os mesmos cortesãos de ontem, apenas com diploma de universidade pública e cadeira em ministério. Vendem medo no atacado e cobram obediência no varejo, e ainda querem agradecimento.
O experimento histórico já foi feito, aliás, e o resultado está na hemeroteca para quem quiser conferir. As maiores carnificinas do século vinte não foram cometidas por bandos de selvagens armados de paus em florestas, foram cometidas por Estados modernos, racionais, científicos, planejadores, com burocracia, ministério, formulário e tabela de comando. Cem milhões de mortos pelos regimes que prometeram pôr ordem no caos da natureza humana. A guerra de todos contra todos que o teórico do Leviatã usava como espantalho mata menos em mil anos do que o Leviatã mata em uma década quando se aborrece. O remédio prometido revelou-se mais letal que a doença imaginária.
A verdade incômoda é que ordem, segurança e cooperação são produzidas espontaneamente por seres humanos quando se respeita propriedade, contrato e responsabilidade individual, e são destruídas sistematicamente quando se concentra poder em mãos que se julgam acima de propriedade, contrato e responsabilidade. O mercado, a família, a comunidade, o costume, a igreja, o tribunal de honra entre comerciantes, todas essas instituições orgânicas resolveram conflitos durante milênios sem precisar de um déspota teórico para legitimar-se. O que precisou de um déspota teórico foi o próprio déspota, que sempre quis um filósofo de aluguel para escrever a justificativa de seu trono. Pagaram bem, e o serviço foi prestado. Mas o preço da fatura ainda está chegando para você todo mês, em forma de imposto, regulação, inflação e ordem que não vem.
Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.