A manchete é de constranger qualquer redator que ainda se leve a sério. Trinta por cento de desconto em tênis da marca Hoka, frete grátis mediante cupom, dez por cento adicional caso o cliente clique aqui, e tudo isso estampado num veículo que já foi referência quando a internet prometia libertar o homem do controle das grandes corporações. O que sobrou daquela promessa é isto: uma coluna de promoção de calçado, com link de afiliado, vestindo terno de jornalismo de tecnologia.
O mecanismo é antigo e desonesto. O portal fecha contrato com uma plataforma de marketing de performance, embute códigos rastreáveis em cada link, e cada clique do leitor rende centavos à redação. Não há crime nisso, evidentemente, desde que o contrato social com quem lê seja respeitado. O problema aparece quando o texto se apresenta como análise, recomendação editorial ou cobertura de tendências, quando na verdade é comissão por venda. O leitor acha que está recebendo curadoria; está recebendo publicidade camuflada. É a mesma lógica do vendedor ambulante que jura ter o melhor preço da feira, exceto que o ambulante não finge ser repórter.
Houve um tempo em que as grandes revistas de tecnologia cobriam rupturas reais, arquitetura de chips, guerras de sistemas operacionais, a ascensão de um garoto que montava computadores na garagem do pai. Hoje o mesmo veículo que já entrevistou engenheiros de silício e pioneiros da rede dedica paragrafos inteiros a informar que, ao digitar determinado código, o consumidor economiza quinze reais num tênis de corrida. O declínio intelectual da imprensa de tecnologia não é uma hipótese, é uma planilha de métricas de conversão aberta numa sala de reunião em Nova York.
Existe ainda um detalhe que merece olhar atento, porque ele revela como o modelo funciona nos bastidores. A frase generica sobre descontos costuma ser gerada de forma semiautomatizada, atualizada mensalmente por algum estagiário ou por um script, otimizada para aparecer nas buscas de quem digita o nome da marca no Google. O objetivo não é informar, é interceptar tráfego de consumidor. A redação virou pedágio digital, cobrando pela simples proximidade com a palavra-chave. É jornalismo transformado em posto de gasolina de rodovia, vivendo do carro que passa.
A solução, aliás, não virá de dentro dessas redações, porque os incentivos financeiros são fortes demais para que alguém desista de centavos fáceis em nome da dignidade editorial. Virá, como sempre vem, de quem construir alternativas. Boletins independentes, canais pequenos, escritores que cobram diretamente do leitor em vez de cobrar do anunciante por baixo do pano. A mesma descentralização que quebrou o monopólio das antigas agências de notícias continua quebrando aquilo que tomou o lugar delas. Resta ao leitor uma escolha simples, quase moral: pagar com atenção para receber catálogo, ou pagar com dinheiro para receber pensamento. Nunca foi tão barato escolher certo.
Enquanto isso, o tênis continua sendo tênis, e o cupom continua sendo cupom. O escândalo não está no calçado, está na etiqueta falsa pregada por cima dele.
Com informações da Wired. A análise e opinião são do O Algoz.