O AEX subiu 1,26% nesta sessão e fechou o pregão com aquele ar de quem sabe o que está fazendo. Não foi euforia, não foi delírio, foi precificação. Os investidores olharam para a paisagem europeia, viram o que conseguiram ver e decidiram que a praça de Amsterdã ainda é o lugar menos hostil para guardar capital naquele continente que insiste em transformar prosperidade em pauta de comissão parlamentar.

Vale lembrar de onde vem essa bolsa. A Holanda inventou o mercado acionário moderno no século XVII, quando comerciantes de especiarias resolveram que era melhor dividir risco entre muitos do que falir sozinhos. Quatrocentos anos depois, o mesmo país que ensinou o mundo a capitalizar empresas continua mostrando, com a paciência de quem já viu de tudo, que mercado livre não é teoria de manual, é hábito civilizatório. Quando se respeita propriedade, contrato e o sossego do empresário, o preço sobe sozinho. Quando se respeita o burocrata, sobe o custo.

O detalhe que ninguém comenta é a contradição cômica. A União Europeia passa o ano publicando diretiva atrás de diretiva, transição verde aqui, taxonomia ali, ESG acolá, e o capital, esse animal arisco que tem nariz fino para hipocrisia, vai se concentrando justamente nas praças que conseguem disfarçar melhor a camisa de força. Amsterdã virou refúgio relativo dentro de um continente que se autoimpôs uma dieta de fome regulatória. Sobe porque os outros descem, sobe porque o vizinho está pior, sobe porque investidor não acredita em discurso, acredita em balanço.

E quem ganha com pregão em alta? Não é o trabalhador holandês que paga uma das cargas tributárias mais salgadas da Europa. Não é o aposentado que vê o fundo de pensão render abaixo da inflação real, aquela inflação verdadeira, a do supermercado, não a maquiada do índice oficial. Ganha o capital que tem mobilidade, ganha o fundo que sabe entrar e sair, ganha o acionista que entendeu cedo que ativo real bate papel pintado toda santa vez que o Banco Central decide mexer na torneira. O resto fica olhando o gráfico subir achando que aquilo é a economia melhorando.

Porque é bom não confundir bolsa com país. Pregão em alta numa economia europeia espremida por imposto, energia cara por opção ideológica e demografia em queda livre não é sinal de saúde, é sinal de que o dinheiro está procurando esconderijo nas únicas empresas globais que ainda escaparam do abraço de urso do regulador. ASML, Shell, Heineken, Unilever vendem para o mundo inteiro justamente porque o mercado doméstico, sufocado, não comportaria. A bolsa sobe quando a empresa foge mentalmente do continente que a hospeda.

Fica a lição, sempre a mesma, repetida com paciência de professor cansado. Onde o Estado recua, o capital floresce. Onde o burocrata avança, o capital migra. Pode tentar prender com regra, pode tentar tributar na saída, pode inventar imposto sobre transação, sobre fortuna, sobre carbono, sobre o que mais a imaginação fiscal conseguir parir. O dinheiro continua sendo o ser mais libertário do planeta, e quando ele vota com os pés, ninguém segura. Amsterdã hoje sorri. Bruxelas devia estar tomando nota, mas anda ocupada demais legislando sobre o formato do pepino.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.