Tom Holland abriu a boca e disse o que qualquer pessoa com dois neurônios funcionais já sabia: o próximo Homem-Aranha, Um Novo Dia, vai ser um filme para adultos. A declaração, tratada pela imprensa especializada como se fosse uma revelação do nível de um pergaminho do Mar Morto, na verdade expõe algo muito mais interessante do que qualquer roteiro de super-herói. Expõe que a maior máquina de entretenimento já construída pela civilização ocidental passou os últimos quinze anos deliberadamente rebaixando o nível intelectual de seus produtos, e agora quer aplausos por parar de fazê-lo.

Pensem bem no que significa um ator precisar confirmar que um filme será sério. Significa que o padrão vigente é o contrário. Significa que a indústria normalizou de tal forma o entretenimento pasteurizado, inofensivo, construído por algoritmo e aprovado por comitê de sensibilidade, que a simples decisão de contar uma história com peso dramático real virou evento jornalístico. Houve um tempo em que o cinema americano produzia obras que tratavam o espectador como um ser pensante sem precisar emitir comunicado à imprensa sobre isso. Ninguém precisou avisar que Taxi Driver seria um filme adulto. Ninguém fez coletiva para anunciar que O Poderoso Chefão não teria piada de alívio cômico a cada sete minutos. A obra falava por si.

O que aconteceu entre aquele cinema e este foi uma operação de engenharia de audiência tão sofisticada quanto cínica. Os grandes estúdios perceberam que filmes infantilizados vendem ingresso em qualquer latitude, qualquer idioma, qualquer faixa etária. Um filme que exige reflexão perde mercado na China. Um filme que confronta o espectador não vende brinquedo. Um filme com ambiguidade moral não gera franquia de parque temático. Então a fórmula se consolidou: herói simpático, vilão genérico, terceiro ato com destruição digital em massa, piada no momento exato em que a emoção ameaça ficar real. A receita funcionou por bilhões de dólares. Funcionou tão bem que o público começou a ir embora.

E é aqui que a coisa fica reveladora. O anúncio de Holland não é uma decisão artística, é uma decisão comercial disfarçada de coragem criativa. Os números do box office nos últimos três anos deixaram claro que a fórmula esgotou. As bilheterias despencaram, os streamings saturaram, e de repente alguém nos escritórios da Sony e da Marvel percebeu que existe um público adulto com dinheiro no bolso que simplesmente parou de ir ao cinema porque se cansou de ser tratado como criança. O filme "adulto" do Homem-Aranha não nasce de uma epifania artística; nasce de uma planilha de Excel que finalmente ficou vermelha o suficiente para assustar alguém.

Dito isso, que o filme seja bom. Que Holland entregue uma performance à altura da promessa. Que Peter Parker envelheça junto com quem cresceu assistindo a ele. Seria uma vitória pequena, mas real, num cenário em que a indústria cultural trata maturidade como nicho e infantilização como universalidade. O problema nunca foi o super-herói. O problema sempre foi a covardia de quem conta a história. Porque existe uma diferença enorme entre fazer um filme que todos possam assistir e fazer um filme que ninguém precisa pensar para entender. A primeira opção é generosidade. A segunda é desprezo pelo público embrulhado em papel de presente.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.