Cole Tomas Allen montou o arsenal em silêncio, comprou passagem de trem, atravessou um continente inteiro com armas e munição na bagagem, e desembarcou em Washington para atacar um jantar que reunia autoridades do governo Trump. Ninguém o parou. Ninguém o notou. Ninguém sequer suspeitou. E aqui está o ponto que a imprensa de aluguel não vai sublinhar com a tinta que merece: o cidadão americano paga, todo ano, centenas de bilhões em agências federais que existem teoricamente para evitar exatamente isso, e o resultado prático é um homem cruzando o país inteiro como quem vai visitar a tia.

Quer dizer, a Amtrak não revista bagagem. A TSA, aquela agência criada no pânico pós-2001 para apalpar viúvas em aeroportos e confiscar shampoo, simplesmente não existe nos trilhos. Olha, ninguém está aqui defendendo que se monte uma muralha burocrática em cada estação, porque já sabemos como termina essa história: cresce, encarece, infantiliza o cidadão e não pega criminoso nenhum. O que se está dizendo é mais incômodo, e por isso mesmo mais verdadeiro: a segurança do contribuinte americano é um teatro caríssimo, e o palco só funciona enquanto o público concorda em fingir que aquilo é real.

Me diz uma coisa, quanto custou a infraestrutura federal de inteligência, vigilância e contraterrorismo desde 2001? A conta passa de oito trilhões de dólares quando se somam as guerras, os departamentos criados, as agências infladas, os contratos milionários com fornecedores amigos. E, com tudo isso, um homem solitário, sem treinamento militar aparente, junta um arsenal, embarca num trem público e chega ao centro do poder político da maior potência do planeta. Siga o dinheiro: ele foi para os fornecedores, foi para os burocratas, foi para os consultores, foi para os contratos sigilosos. Não foi para a segurança real de ninguém.

O detalhe mais constrangedor é que a resposta previsível, vinda dos mesmos que criaram o problema, será pedir mais poder, mais agências, mais escaneamento, mais bancos de dados, mais vigilância sobre o cidadão comum. É sempre assim. A intervenção falha gera demanda por nova intervenção, que falhará de novo, que gerará demanda por mais uma camada, e no fim o que sobra é um cidadão sem privacidade, sem dinheiro no bolso e ainda assim sem segurança. O atirador não desafia o sistema; ele expõe o sistema. E o sistema, em pânico, vai pedir para crescer mais, porque agências burocráticas são organismos que só conhecem uma direção, que é para cima.

Há também a dimensão moral, que ninguém quer encarar. Um país onde um sujeito monta arsenal para atacar autoridades não tem um problema de logística ferroviária; tem um problema de alma. A radicalização política nos Estados Unidos não caiu do céu, não é fruto de "polarização abstrata", é resultado de duas décadas de uma elite cultural que ensinou metade do país a odiar a outra metade como se fossem vermes a serem exterminados. Quando o discurso público se transforma em guerra de extermínio simbólico, é apenas questão de tempo até que algum desequilibrado leve a metáfora a sério. Os mesmos que hoje fingem espanto são os que passaram anos chamando seus adversários de fascistas, de ameaça existencial, de subumanos. Colhe-se o que se planta, e o que se plantou foi rancor industrial.

O que sobra desse episódio, no fim das contas, não é a história de um lunático armado, porque lunáticos armados sempre existirão em qualquer sociedade. O que sobra é o retrato de um Estado obeso, caro, intrusivo, que falha precisamente naquilo que justificaria sua existência mínima, que é proteger a vida e a propriedade dos cidadãos contra a violência. Tudo o mais que esse Estado faz, ele faz mal. E o pouco que deveria fazer bem, ele terceiriza para o acaso e para a sorte.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.