A Honda anunciou que encerra a venda de automóveis na Coreia do Sul até o fim de 2026, e a notícia, que parece apenas mais um ajuste de portfólio de multinacional, é na verdade o atestado de óbito de uma fantasia que teima em sobreviver nos gabinetes do mundo inteiro: a de que governo consegue "proteger" mercado sem sufocá-lo. A marca que construiu império global na base de motor confiável e preço honesto está desistindo de um dos mercados mais ricos da Ásia. Quer dizer, não é que o consumidor coreano odeie Honda. É que entre tarifas embutidas, homologações infindáveis, exigências regulatórias desenhadas sob medida para as campeãs locais e um sistema de distribuição que favorece o cartel doméstico, vender carro importado em Seul virou exercício de masoquismo contábil.

Olha, todo mundo sabe como funciona o arranjo coreano. O chamado chaebol, aquele conglomerado familiar que almoça com ministro e janta com deputado, transformou o país numa potência industrial, sim, mas ao preço de criar uma economia onde o governo escolhe vencedores antes mesmo de o jogo começar. Hyundai e Kia não dominam 80% do mercado interno porque fazem carros melhores que todo mundo, dominam porque o campo inteiro foi nivelado em inclinação favorável, com subsídios diretos, crédito estatal de juros privilegiados, benefícios fiscais travestidos de política industrial e barreiras não tarifárias que fazem qualquer estrangeiro pensar duas vezes antes de entrar. O japonês pensou, fez as contas, e foi embora.

Me diz uma coisa, quem paga essa conta no fim? O coreano comum, claro. O sujeito que entra numa concessionária em Busan e só enxerga três marcas nacionais na vitrine, com preços que refletem a ausência de pressão competitiva real, não está vivendo num mercado livre, está vivendo num shopping com porteiro. A ilusão de prosperidade do campeão nacional é sustentada pelo bolso do cidadão que não percebe o quanto paga a mais pelo carro que compra, e o quanto deixa de ganhar porque a economia em volta dele perdeu eficiência. Aquele emprego preservado na linha de montagem da Hyundai, todo mundo vê. Os empregos que nunca existiram no setor de autopeças importadas, nos serviços que orbitariam uma indústria automotiva plural, nos ganhos de produtividade que a concorrência traria, esses ninguém conta.

E a ironia mais deliciosa é que o protecionismo, vendido eternamente como defesa do "interesse nacional", sempre termina enfraquecendo justamente quem jurou proteger. Quando a Hyundai finalmente enfrentar uma crise global séria, um choque de tecnologia chinesa ou uma reviravolta no mercado de elétricos, vai descobrir que décadas mamando na teta do Estado deixaram seu sistema imunológico competitivo atrofiado. Quem nunca teve que brigar de verdade com rival estrangeiro no próprio quintal não aprende a brigar em quintal alheio. A China, aliás, está aprendendo essa lição agora mesmo, e a Coreia vai aprender depois, sempre depois, porque a lição econômica fundamental é uma dessas verdades incômodas que os políticos preferem fingir que não ouviram.

A saída da Honda é pequena no balanço global da empresa, provavelmente nem afete o lucro trimestral em Tóquio. Mas é um sinal que qualquer economista honesto lê com clareza: quando o custo de operar num mercado supera o benefício de nele estar, o capital vai embora, silenciosamente, sem drama, sem manifesto. É o oposto do que os burocratas imaginam quando desenham suas políticas industriais em reuniões climatizadas. Eles acham que estão construindo fortaleza, e na verdade estão construindo prisão, e as paredes dessa prisão eventualmente desabam sobre a cabeça dos próprios guardiões que juraram zelar por ela. A Coreia acaba de perder uma marca, o consumidor coreano acaba de perder uma opção, e o governo em Seul vai comemorar isso como vitória da indústria nacional. É o tipo de vitória que, acumulada ao longo das décadas, tem outro nome na vida real: decadência silenciosa.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.