A Honda admitiu, com a elegância protocolar que só os japoneses dominam, que errou a mão nos mercados de motocicletas elétricas do Vietnã e da Índia. Tradução para quem não fala corporativês, projetaram volumes que o consumidor real recusou comprar, queimaram capital em linhas de produção dimensionadas para uma demanda que existia apenas em PowerPoint, e agora correm para reposicionar produto, preço e narrativa antes que o acionista comece a fazer perguntas desagradáveis na próxima assembleia.
O detalhe que ninguém quer encarar de frente é que esse erro não é um erro qualquer. É o erro clássico, o erro de sempre, o erro que se repete desde que o primeiro burocrata achou que sabia mais que o sujeito que acorda às cinco da manhã para puxar carga numa moto a combustão de cento e dez cilindradas. O motoboy de Ho Chi Minh não está esperando o futuro chegar, ele está esperando a corrida das três da tarde pagar o arroz da noite. E para isso ele precisa de autonomia, de posto de combustível em cada esquina, de peça barata na oficina do primo, e de uma máquina que aguente chuva, calor, buraco e quatro passageiros quando o cunhado pedir carona. A moto elétrica premium, com bateria que precisa de tomada que não existe e assistência técnica que fica a quarenta quilômetros, resolve um problema que ele não tem.
Siga o dinheiro e você entende a confusão. A pressão por eletrificação não nasceu da demanda do consumidor asiático, nasceu de gabinetes em Bruxelas, de metas de carbono assinadas em hotéis cinco estrelas, de subsídios que tornam artificialmente atrativo aquilo que o mercado, deixado em paz, descartaria. As montadoras leem o memorando regulatório, calculam o crédito fiscal, projetam o bônus do executivo, e despejam bilhões numa categoria de produto que precisa de muleta governamental para sair do showroom. Quando a muleta falha, ou quando o consumidor pobre, que tem o defeito imperdoável de saber fazer conta, recusa o produto, sobra o estoque e a justificativa esfarrapada de que o mercado ainda não amadureceu. O mercado amadureceu. Quem não amadureceu foi a planilha.
Há uma arrogância silenciosa nessa história, e ela merece nome. É a velha pretensão de que um comitê em Tóquio, lendo relatório de consultoria feito por outro comitê em Cingapura, sabe melhor do que cento e tinta milhões de vietnamitas o que cento e trinta milhões de vietnamitas deveriam querer. Esse tipo de arrogância tem um histórico longo e melancólico, vai do Gosplan soviético decidindo quantos pares de sapato o cidadão precisa, até o ministério francês definindo qual queijo é autêntico. A diferença é que a Honda usa capital próprio, e portanto vai pagar a conta sozinha, ao contrário do planejador estatal, que socializa o erro e privatiza a desculpa.
O que se vê é o anúncio do recuo, a meta revisada, o comunicado contrito. O que não se vê é o capital que poderia ter sido aplicado em pesquisa de motor a combustão mais eficiente, em rede de distribuição mais capilar, em moto popular que custa o equivalente a três meses de salário e dura dez anos. Esse capital foi incinerado no altar de uma agenda climática que ninguém naquelas ruas pediu, e o consumidor que continuará comprando moto a gasolina, porque é o que faz sentido para a vida dele, será chamado de atrasado por jornalistas que nunca pilotaram coisa alguma além do próprio preconceito. A lição, se é que alguém na diretoria está disposto a aprender, é antiga e simples. O preço não mente, a demanda não obedece a comunicado oficial, e o consumidor, esse senhor anônimo que vota com o bolso todos os dias, é mais sábio do que qualquer reunião estratégica jamais será.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.