Quinze bilhões de dólares de Hong Kong, ou perto de um bilhão e nove na moeda que ainda manda no mundo, é o tamanho da boca que o Airport Authority abriu no mercado local de dívida. Vai ser a única emissão pública do ano, dizem as fontes, como se a escassez justificasse o apetite. Não justifica. O que está acontecendo ali é o velho ritual financeiro vestido com gravata nova, o mesmo enredo do governo que precisa de dinheiro, do banco que precisa colocar papel no balanço e do investidor institucional que precisa cumprir mandato. Todos saem felizes da mesa, menos o sujeito que não foi convidado e que vai pagar a conta lá no fim, na forma de tarifa, de imposto disfarçado ou de inflação importada quando o jogo virar.

Vamos chamar as coisas pelo nome. O Airport Authority é estatal, controlado pelo governo de Hong Kong, e quando uma estatal capta no mercado, ela está usando o crédito implícito do contribuinte como colateral invisível. O investidor que compra esse bônus não está apostando na engenhosidade do gestor aeroportuário, está apostando que se a coisa azedar o governo vai cobrir. Isso tem nome técnico, chama-se garantia soberana implícita, e tem nome popular também, chama-se socialização do risco. Lucros para os bondholders, prejuízos para a população. Quem inventou esse arranjo merecia uma estátua na calçada da casa de cada cidadão que nunca foi consultado.

O detalhe mais saboroso é o contexto. Hong Kong vive hoje uma enxurrada de emissões em moeda local, um boom de dívida que os jornais celebram como sinal de maturidade do mercado de capitais asiático. Maturidade coisa nenhuma. Boom de dívida nunca foi sintoma de saúde, foi sempre sintoma de juros artificialmente convidativos, de liquidez sobrando porque alguém em algum banco central decidiu que era hora de empurrar o custo do dinheiro para baixo. E quando a liquidez some, e ela sempre some, o que parecia mercado profundo vira lama. Pergunte a qualquer japonês de meia idade o que sobrou do milagre dos anos oitenta, ele te explica.

Tem ainda a questão do projeto em si. O Airport Authority está expandindo, construindo a terceira pista, ampliando terminal, modernizando isso e aquilo. Tudo muito bonito no render arquitetônico. Só que ninguém faz a pergunta básica, a pergunta que separa o adulto da criança em qualquer conversa econômica séria, que é a seguinte, esses bilhões iam ser alocados onde se não fossem sugados pelo aeroporto estatal? Em quantas pequenas empresas, em quantas startups de Hong Kong, em quantos negócios privados que agora vão ter que disputar capital mais caro porque o gigante público chegou primeiro na fila? O custo do que se vê é a pista nova brilhando ao sol. O custo do que não se vê é a economia privada estrangulada na sombra.

E há o elefante no terminal de embarque, que é a moeda. Captação em dólar de Hong Kong, sistema de currency board atrelado ao dólar americano desde mil novecentos e oitenta e três, num momento em que a relação entre Pequim e Washington é tudo menos previsível. Quem compra esse papel está fazendo uma aposta dupla, no aeroporto e na geopolítica, e está chamando isso de investimento conservador. Não é. É especulação travestida de prudência, exatamente o tipo de erro de avaliação que precede crises das boas, dessas que viram capítulo de livro daqui a vinte anos. Ninguém vai dizer que viu, claro, todo mundo vai jurar de pé junto que era impossível prever. Sempre é.

O resumo da ópera é simples. Estatal de aeroporto capta quase dois bilhões usando crédito do contribuinte como garantia implícita, num mercado inflado por dinheiro barato, para financiar expansão decidida por burocrata e tarifada por monopolista. Os jornais financeiros chamam isso de oportunidade. Eu chamo de aviso. Quando o concreto custa mais barato que a liberdade econômica que ele consome, a próxima crise já está sendo cimentada, parafusada e inaugurada com fita verde e champanhe morno.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.