A Horizon Kinetics, gestora de ativos com bilhões sob administração, comprou US$ 4.105 em cotas do Renaissance Capital Greenwich Funds, o tal fundo REN focado em recursos naturais. Quatro mil e cento e cinco dólares. O preço de uma geladeira boa, de uma viagem de família modesta, de meio mês de aluguel em apartamento decente de São Paulo. E isso, leitor, virou notícia financeira reverberada em terminais Bloomberg, Investing, Reuters e onde mais houver tela piscando cotação. Pare e pense no absurdo da cena por um instante.

O fenômeno tem nome técnico, claro que tem, porque a burocracia ama batizar suas próprias produções: filing de Formulário 4 na SEC, aquela exigência regulatória que obriga insiders e gestoras a declararem cada movimento, por menor que seja, sob a justificativa nobilíssima de proteger o pequeno investidor das maquinações dos poderosos. Bonito no papel. Na prática, o que se produziu foi uma indústria gigantesca de ruído, em que cada centavo movimentado por alguém com sobrenome relevante vira manchete, e o sujeito que realmente quer entender o mercado tem que garimpar sinal em meio a um oceano de farelo. A regulação que prometia transparência entregou poluição informacional, e a poluição informacional é a melhor amiga de quem quer esconder o que importa.

Olha, me diz uma coisa: quem ganha com isso? Não é o pequeno investidor, que afoga em dados sem contexto. Não é a gestora, obrigada a publicar até quando manda café para a sala. Quem ganha é o ecossistema regulatório, o exército de advogados de compliance, os terminais de dados que vendem o lixo organizado como caviar, e a classe sacerdotal dos analistas que vive de interpretar runas. Toda regulação cria sua própria casta de intérpretes, e essa casta jamais permitirá que a regulação seja simplificada, porque simplificá-la seria assinar o próprio bilhete de desemprego. É o que se vê em cada esquina da economia regulada: o problema que a regra dizia resolver se eterniza, porque resolvê-lo significaria fechar a loja.

E enquanto a imprensa econômica gasta caracteres com US$ 4.105, o Federal Reserve segue imprimindo, o Tesouro americano segue rolando uma dívida de trinta e seis trilhões, o Banco Central Europeu segue testando os limites da paciência da realidade, e o nosso Copom aqui no Brasil segue fingindo que controla algo num país onde o gasto público é uma locomotiva sem freio rumo ao precipício. O verdadeiro escândalo monetário acontece à plena luz do dia, em comunicados áridos que ninguém lê, enquanto o circo gira em torno de migalhas de transações de gestoras que precisam cumprir formulário. É o truque mais velho do baralho do poder: faça barulho sobre o irrelevante para que o relevante passe despercebido.

O fundo em questão, diga-se de passagem, é de recursos naturais, e aí mora um detalhe interessante que ninguém comenta. Recursos naturais são justamente o tipo de ativo que historicamente protege contra a degradação monetária promovida pelos bancos centrais. Quando uma gestora séria, mesmo que com troco de bolso, sinaliza posição em commodities, ouro, energia, terra, ela está dizendo algo que vale mais do que o valor da transação: está dizendo que confia menos no papel impresso pelo governo do que naquilo que se tira do chão. Essa é a notícia que deveria estar na manchete. Mas a manchete fica com o valor da compra, porque o valor da compra é seguro, é factual, é mensurável, e a desconfiança institucional na moeda fiduciária é desconfortável demais para ser dita em voz alta.

No fim, a lição é a de sempre, e ela cabe numa linha: quando o jornal grita sobre quatro mil dólares, é hora de perguntar o que está acontecendo com os quatro trilhões que ninguém está olhando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.