A vinheta abre, a câmera passeia pelos arranha-céus do Golfo, um analista de gravata fina explica em tom contido que o Oriente Médio e a África estão diante de "oportunidades sem precedentes", e o telespectador é convidado a engolir, junto com o café da manhã, a ideia de que o deserto floresceu por mágica do empreendedorismo local. Quer dizer, floresceu coisíssima nenhuma. Floresceu porque há cinquenta anos uma commodity bombeada do subsolo é vendida em dólar, esse mesmo dólar volta convertido em torre de vidro, e a torre de vidro é fotografada pela Bloomberg para parecer Manhattan. Tirar o petróleo da equação e ver o que sobra é exercício que nenhum apresentador de TV tem coragem de fazer ao vivo.

O programa fala de "diversificação", palavra mágica que economistas de banco repetem desde os anos noventa sem que ninguém pergunte o óbvio. Diversificar com qual capital? Com o fundo soberano abastecido por barril vendido a oitenta dólares? Com a estatal de energia que financia a estatal de turismo que financia a estatal de inteligência artificial? Isso não é diversificação, é redistribuição interna de renda petrolífera entre primos da mesma família real, com selo de consultoria americana cobrando milhões por slide em PowerPoint. O capital de verdade, aquele que nasce de poupança privada acumulada por gerações de pequenos negociantes, esse continua proibido de florescer onde não há propriedade privada protegida nem judiciário independente.

Olha, a África no mesmo bloco recebe três minutos de noticiário e a inevitável menção ao "crescimento robusto" de algum país produtor de cobalto. Robusto para quem? Para a mineradora canadense que assinou contrato com o ditador local, para o intermediário em Genebra que estrutura o pré-pagamento, para o banco em Londres que abre carta de crédito e para o consultor do Banco Mundial que vai escrever o paper celebrando o caso de sucesso. Para o camponês congolês cujo subsolo foi vendido por concessão de noventa e nove anos antes dele nascer, a robustez chega em forma de inflação importada e estrada esburacada. Siga o dinheiro e a paisagem muda.

E há um detalhe que esse tipo de programação nunca encara de frente, porque encarar dói no patrocinador. Cada dólar de "investimento estrangeiro direto" celebrado naquele mapa colorido foi antes impresso em algum prédio cinza de Washington, emprestado a juro real negativo a um fundo de Nova York, transformado em participação em fundo de Abu Dhabi e finalmente desembarcado em projeto faraônico no Cairo ou em Lagos. Não é poupança real encontrando oportunidade real. É expansão monetária crônica precisando desesperadamente de algum lugar para pousar antes que vire inflação na padaria americana. O Golfo e o Sahel viraram o tapete debaixo do qual a impressora esconde a sujeira.

O conservadorismo bem entendido olha para aquelas torres de Dubai e enxerga o que elas têm de admirável, a engenharia, a ambição, o gosto pela permanência, e enxerga também o que elas têm de frágil, a ausência de instituições que sobrevivam ao próximo monarca. Beleza construída sobre renda extrativa é castelo de areia bem decorado. Quando o petróleo perder relevância, e vai perder, a herança que ficar para os netos daquela região será o que houver sido construído fora do petróleo, fora do subsídio real, fora do capricho do palácio. Por enquanto, é pouco. Bem pouco.

Então o telespectador desliga a televisão achando que viu jornalismo econômico e na verdade viu folheto turístico patrocinado por petrodólar e por banco central ocidental, os dois sócios silenciosos do espetáculo. A próxima vez que aparecer aquele drone sobrevoando Riade ao som de trilha épica, vale lembrar que aquilo não é o triunfo do mercado, é o último estágio de um arranjo monetário internacional que precisa de cenários grandiosos para distrair do fato de que a moeda em que tudo é precificado vale cada vez menos. O deserto não mente. Quem mente é o teleprompter.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.