A notícia chega embrulhada na linguagem cuidadosa dos gestores de fundo, mas o recado é simples e antigo como o próprio mercado. A presidente da First Global, Devina Mehra, observa que o pessimismo sobre as ações indianas está tão entranhado, tão unânime, tão repetido em mesa de operação e em coluna de jornal, que estatisticamente o cenário começa a se inverter. Quando todos olham para o risco, alguém com paciência olha para o preço. E o preço, quando o medo aperta, costuma ser convidativo.

Há uma lei silenciosa que governa o capitalismo desde que existem bolsas de valores, e ela nunca foi revogada por nenhum banco central, por nenhum analista de televisão, por nenhum guru indiano de turbante ou de gravata. A lei diz o seguinte: o retorno futuro de um ativo é inversamente proporcional ao entusiasmo do consenso no momento da compra. Comprou-se aplaudido por todo mundo? Provavelmente perdeu dinheiro. Comprou-se contra a multidão, com o estômago revirado e o telefone tocando com amigos perguntando se você ficou louco? Provavelmente acertou.

O caso indiano é particularmente interessante porque envolve uma das poucas economias de grande porte que ainda crescem com vigor genuíno, não com a maquiagem fiscal e a impressora ligada que sustentam o crescimento oficial em tanto país por aí. A Índia tem demografia, tem mercado consumidor interno em expansão, tem uma classe produtiva que não depende de subsídio para existir. Tudo isso continua de pé enquanto o estrangeiro vende em pânico porque leu uma manchete sobre desaceleração trimestral. O estrangeiro vende, o indiano compra, e a história se repete pela milésima vez.

Vale lembrar que o pessimismo de hoje sobre a Índia tem cara conhecida. É o mesmo pessimismo que fez gente perder o boom dos mercados emergentes em ciclos anteriores, o mesmo que fez muita gente ficar de fora das maiores valorizações do mercado americano após cada correção, o mesmo que sempre confunde volatilidade de curto prazo com colapso estrutural. Quem vive de manchete vende no fundo. Quem entende que mercado é uma máquina de transferir patrimônio do impaciente para o paciente, compra quando ninguém quer.

O dado interessante que escapa do noticiário é o seguinte: valuations comprimidas em uma economia que mantém crescimento real, combinadas com sentimento extremamente negativo, formam o que costumava se chamar de assimetria positiva. O risco está precificado, o retorno potencial não está. É exatamente o oposto do que se viu em ativos da moda quando todo mundo achou que árvores cresciam até o céu. A diferença entre ganhar dinheiro e perder dinheiro no mercado raramente está na inteligência. Está no momento em que se entra. E o momento, quando o consenso grita "saia daí", costuma estar bem na frente do seu nariz.

Enquanto isso, os mesmos analistas que recomendaram comprar no topo agora recomendam vender no fundo, e cobram pelo serviço. O mercado é cruel com quem se deixa governar pelo humor coletivo, e generoso com quem aprende a ler o medo como sinal de compra. A Índia pode estar oferecendo, neste momento, o tipo de oportunidade que só aparece quando o pessimismo se torna religião. Quem tiver olho para ver, verá. Quem esperar a manchete favorável, chegará tarde, como sempre chega.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.