A CEO do HSBC em Hong Kong, Maggie Ng, apareceu nas margens do HSBC Global Investment Summit para anunciar, com aquele entusiasmo corporativo ensaiado, que o banco está investindo pesadamente em infraestrutura e tecnologia digital para atender uma demanda crescente de novos clientes em gestão de patrimônio. A frase soa como press release, e é exatamente isso. Mas o que ela revela sem querer é infinitamente mais interessante do que o que tenta vender. Quando um dos maiores bancos do mundo reorganiza suas operações para captar fortunas em movimento, a pergunta que nenhum jornalista financeiro faz é justamente a única que importa: por que esse dinheiro está em movimento?
A resposta é tão velha quanto a própria civilização comercial. O capital migra quando os governos avançam sobre ele. Não é coincidência que Hong Kong, essa anomalia histórica onde o Ocidente e o Oriente se encontraram sob regras de mercado relativamente livres, esteja vendo uma explosão de demanda por serviços de proteção patrimonial. A China continental aperta o cerco regulatório a cada trimestre. O Sudeste Asiático inteiro oscila entre populismo fiscal e tentações redistributivas. A Europa já se entregou ao fisco como projeto civilizatório. E os Estados Unidos, que um dia foram refúgio do capital produtivo, agora flertam com tributação sobre ganhos não realizados, como se o Estado pudesse cobrar imposto sobre dinheiro que ainda não existe. O capital não tem pátria, tem endereço provisório. E muda de endereço quando o proprietário percebe que o inquilino virou assaltante.
Maggie Ng fala em "novos clientes". Quer dizer, gente que até ontem mantinha suas fortunas em estruturas domésticas e acordou para o fato de que a soberania sobre o próprio patrimônio não é garantida por nenhuma constituição quando o governo decide que "justiça social" é mais importante que direito de propriedade. Esses novos clientes não estão buscando rendimento, estão buscando sobrevivência patrimonial. O HSBC sabe disso, seus concorrentes sabem disso, e o mercado inteiro de wealth management sabe disso. Ninguém diz, porque dizer equivale a admitir que o sistema tributário global se tornou uma máquina de expropriação lenta, e esse tipo de franqueza não fica bem em summit de investimentos.
Olha, a ironia mais deliciosa é que Hong Kong, território sob jurisdição de Pequim desde 1997, ainda funciona como porto seguro relativo para fortunas asiáticas. Isso diz menos sobre as virtudes de Hong Kong e mais sobre a deterioração generalizada das alternativas. Quando o regime que prendeu Jack Ma é considerado "previsível o suficiente" para guardar dinheiro, você sabe que o resto do mundo perdeu completamente o juízo fiscal. O HSBC, com sua história de ópio e impérios, sempre teve o faro apurado para cheirar onde o dinheiro quer ir. Não porque seja genial, mas porque bancos são, no fundo, parasitas sofisticados que prosperam quando o hospedeiro está doente. E o hospedeiro, neste caso, é a confiança mundial nos governos como guardiões do patrimônio privado.
A menção ao mercado imobiliário de Hong Kong, feita quase de passagem por Ng, merece atenção. O setor imobiliário asiático vive uma ressaca monumental depois de anos de crédito artificialmente barato, aquele velho truque dos bancos centrais que sempre termina da mesma forma: bolha, estouro, e os mesmos burocratas que inflaram os preços aparecendo na televisão para "salvar" o mercado com mais do mesmo veneno que causou a doença. O HSBC posicionar-se como gestor de patrimônio justamente quando o tijolo deixa de ser reserva de valor confiável não é acidente; é estratégia de quem entende que o dinheiro precisa ir para algum lugar, e quem chegar primeiro com a porta aberta leva a comissão.
Me diz uma coisa: quando foi que aceitar como normal o fato de que pessoas precisam de estruturas bancárias internacionais sofisticadas simplesmente para manter o que é delas? O problema não é o HSBC vendendo serviço de proteção patrimonial. O problema é que existe demanda para isso. Em um mundo onde o direito de propriedade fosse levado a sério, gestão de patrimônio seria sobre rendimento, não sobre fuga. Mas vivemos no mundo em que vivemos, onde cada governo acredita que a riqueza alheia é recurso público mal distribuído. E enquanto essa mentalidade reinar, o HSBC e seus pares vão continuar faturando bilhões oferecendo exatamente o que o Estado tornou necessário: um esconderijo civilizado para quem produz riqueza e não quer vê-la confiscada por quem nunca produziu nada.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.