A notícia veio embrulhada em papel de seda, como convém ao setor. O HSBC rebaixou LVMH e Burberry apontando um segundo semestre desafiador, e os analistas do circuito repetiram a expressão como se ela explicasse alguma coisa. Não explica. O que se está vendo é o desmanche lento de uma euforia fabricada nos últimos quinze anos por juros artificialmente baixos, estímulo monetário chinês e a ilusão de que uma classe média global emergente compraria bolsa de couro para sempre, em quantidades crescentes, a preços crescentes, sem que nada quebrasse no meio do caminho. Quebrou.
O luxo europeu foi, durante uma década e meia, o beneficiário mais discreto e mais gordo da farra de crédito global. Enquanto o cidadão comum via seu salário derreter contra o preço do aluguel, o consumidor de bolsa Louis Vuitton via o preço do produto subir vinte por cento ao ano e comprava mesmo assim, porque o dinheiro parecia infinito e o status parecia obrigatório. LVMH virou a maior capitalização da Europa vendendo desejo empacotado, e Bernard Arnault virou o homem mais rico do continente cobrando margens que fariam corar um cartel do petróleo. Tudo isso repousava sobre uma premissa silenciosa: a de que o chinês recém-enriquecido, o americano com portfólio inflado e o europeu endividado continuariam gastando como se o amanhã não fosse chegar.
O amanhã chegou. A China desacelerou, e o consumidor chinês, que respondia por um terço do faturamento global do setor, descobriu que apartamento em Xangai não vale mais o que valia, que emprego em Shenzhen não é mais garantido, que ostentar em Paris deixou de ser prioridade quando o governo local passou a olhar torto para exibicionismo. A Europa fica em estagflação disfarçada de resiliência, os americanos gastaram a poupança da pandemia e agora rolam dívida no cartão a taxas que fariam agiota do interior corar. Sobrou para quem? Sobrou para o balanço da LVMH, da Kering, da Burberry, do setor inteiro que passou anos vendendo escassez artificial a preço de raridade genuína.
Vale a pena olhar para o que ninguém está olhando. Quem financiou essa festa? O Banco Central Europeu com juros negativos por quase uma década. O Federal Reserve imprimindo trilhões. O Banco Popular da China inflando crédito imobiliário. Cada bolsa vendida a dez mil euros tinha, embutido, um pedaço de dinheiro criado do nada em algum computador de autoridade monetária. Quando a torneira fecha, quando os juros voltam a existir, quando o custo do capital deixa de ser zero, o desejo por objeto de status deixa de ser inelástico. É economia básica, aquela que nenhum comitê central quer entender enquanto está lucrando com o oposto.
A ironia gastronômica do episódio é que o mesmo HSBC que agora rebaixa foi um dos financiadores da alavancagem que inflou o setor durante anos. O banco emite relatório pessimista depois que seus clientes institucionais já saíram das posições, o pequeno investidor lê a manchete no Investing e vende no fundo do poço, e o ciclo se completa como sempre se completou: quem tinha informação lucrou na subida e na descida, quem confia em relatório público paga a conta. A ordem espontânea do mercado é maravilhosa quando funciona, mas quando o mercado é distorcido por décadas de dinheiro fabricado por decreto, a ordem que aparece é a ordem do saque bem organizado.
Fica a lição, para quem quiser ouvir. Toda vez que uma autoridade monetária jura que pode manter juros baixos para sempre sem consequência, alguma bolha está sendo inflada em algum canto. Pode ser imobiliário, pode ser tecnologia, pode ser bolsa de couro costurada à mão em Florença e vendida por dez mil euros para gerente de banco chinês que pensou que o dinheiro era dele. Quando a bolha estoura, quem pagou o couro fica com o couro, quem pagou a ação fica com o prejuízo, e quem imprimiu o dinheiro fica com o cargo, o bônus e a próxima política de estímulo já engatilhada. É o eterno retorno do mesmo, agora com aroma de perfume francês azedando na prateleira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.