David Liao, co-CEO do HSBC para Ásia e Oriente Médio, foi aos microfones da Bloomberg dizer, com aquela solenidade própria dos executivos que confundem eufemismo com competência, que a base de clientes do banco migrou para o chamado "modo risk-off" por causa das tensões com o Irã. Traduzindo do banquês para o português: as pessoas estão com medo e estão tirando o dinheiro da mesa. Não é preciso um MBA em Wharton para entender isso, basta ter vivido qualquer das últimas cinco crises que o sistema financeiro internacional generosamente nos presenteou.

O que Liao não disse, e jamais diria num evento corporativo com canapés e crachás, é por que exatamente seus clientes estão tão nervosos. Não é apenas o Irã. O Irã é o gatilho visível de um revólver que vem sendo carregado há anos por bancos centrais que imprimem dinheiro como se papel virasse riqueza, por governos que inflam déficits como quem enche balão de festa e por uma ordem geopolítica sustentada não pela cooperação voluntária entre nações livres, mas pelo equilíbrio precário de arsenais nucleares e sanções econômicas que punem populações inteiras para pressionar regimes que não se movem. Quando você constrói um castelo de cartas monetário sobre uma mesa geopolítica que treme, não deveria se surpreender quando os moradores começam a guardar ouro debaixo do colchão.

Olha, me diz uma coisa: alguém realmente acredita que "balanços estáveis" significam saúde financeira? Os balanços do Lehman Brothers estavam "estáveis" seis meses antes de virarem papel higiênico histórico. Os balanços dos bancos gregos estavam "adequados" até o dia em que os caixas eletrônicos de Atenas cuspiam apenas bilhetes de desculpas. A estabilidade de um balanço bancário é como a calmaria antes do furacão, ela só impressiona quem não entende de meteorologia. O HSBC, que apostou todas as fichas na Ásia como sua grande estratégia de futuro, agora descobre que a Ásia fica geograficamente perto de todas as panelas de pressão do mundo, do Estreito de Taiwan ao Golfo Pérsico, passando pelo Mar Vermelho onde os Houthis transformaram rotas comerciais em tiro ao alvo.

Quer dizer, o banco que se reestruturou para ser "o banco da Ásia" agora precisa explicar aos acionistas que a Ásia é também o epicentro de toda instabilidade que governos ocidentais e orientais produziram com suas aventuras intervencionistas. Cada sanção imposta, cada aliança militar firmada, cada barril de petróleo usado como arma diplomática distorce os sinais de preço que deveriam guiar decisões racionais de investimento. Quando o preço do petróleo sobe não porque a demanda real aumentou, mas porque dois governos decidiram medir forças, o mercado inteiro opera no escuro. E operar no escuro é exatamente o que "risk-off" significa na prática: não sei para onde ir, então fico parado.

O mais revelador da declaração de Liao não é o que ele disse, é o que ficou implícito. Se os clientes estão em modo defensivo, alguém está perdendo receita com taxas de transação, com gestão de patrimônio, com os mil e um produtos estruturados que bancos como o HSBC vendem como se fossem seguros até o dia em que não são. O "risk-off" do cliente é o "revenue-off" do banco. E quando a receita cai, a pressão por resultados sobe, e quando a pressão sobe, bancos começam a tomar riscos que não deveriam, empurrando produtos mais agressivos para clientes mais assustados. É um ciclo que se repete com a regularidade de um relógio suíço e com a previsibilidade de um político prometendo austeridade em ano de eleição.

No fundo, o que Liao descreveu sem querer é o retrato de um sistema que pune a prudência e recompensa a temeridade, até o dia da conta. Os clientes que fogem do risco hoje são os mesmos que foram empurrados para o risco ontem por juros artificialmente baixos que tornavam a poupança um exercício de masoquismo. Agora que o mundo real bate à porta com conflitos reais e consequências reais, o sujeito que guardou dinheiro vivo é chamado de conservador medroso, e o que alavancou tudo em derivativos exóticos é chamado de sofisticado. Até o dia em que o medroso dorme tranquilo e o sofisticado liga para o advogado. O medo, quando o sistema é construído sobre areia, não é covardia. É a última forma de inteligência que o mercado ainda permite.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.