O húngaro acordou no domingo com quase 80% de participação eleitoral e fez o que parecia impossível há dois anos: enterrou 16 anos de Viktor Orbán com uma avalanche de votos. O partido Tisza, de Péter Magyar, saiu das urnas com 53,6% dos votos e 138 das 199 cadeiras do parlamento, dois terços da casa, maioria suficiente para reescrever a Constituição. Orbán concedeu a derrota ainda na noite eleitoral, com a dignidade reservada a quem percebe que o jogo acabou, e declarou que a oposição agora carrega a responsabilidade que ele carregou por uma geração e meia. Foi generoso em palavras. Não havia outra escolha.
O problema começa exatamente aqui. A maioria de dois terços é uma ferramenta. Orbán a usou durante anos para reformar tribunais, domesticar a mídia, redesenhar distritos eleitorais e cimentar uma estrutura de poder que muitos chamaram de autocrática e que seus defensores chamavam de soberania. A mesma ferramenta agora está nas mãos de Magyar. A diferença entre um instrumento de liberdade e um instrumento de controle não está no instrumento, está em quem o empunha e com qual finalidade. A história tem uma paciência enorme para demonstrar este ponto, e ela o demonstra repetidamente para quem se dispõe a olhar. Regimes que começam com mandatos avassaladores raramente resistem à tentação do mandato permanente.
Magyar já anunciou o programa: reintegrar a Hungria ao sistema judiciário da União Europeia, destravar os 90 bilhões de euros de empréstimo à Ucrânia que Orbán bloqueava, e restaurar o que chama de Estado de Direito. Três promessas, três perguntas. A primeira: reintegrar-se à UE significa, na prática, submeter-se à burocracia de Bruxelas, a mesma que impõe regulações sobre o tamanho de pepinos e o formato de bananas, que taxou o gás e prometeu energia barata pela eólica. O retorno ao "Estado de Direito europeu" é o retorno a qual direito, exatamente? O segundo ponto é mais delicado: 90 bilhões de euros para a Ucrânia bloqueados por Orbán serão desbloqueados por Magyar. Convém perguntar quem se senta no outro lado desta mesa. Não é caridade, é política externa com cifras astronômicas. Siga o dinheiro e você chegará aos interesses que agora comemoram em Bruxelas e Washington.
Há uma ironia que passa despercebida na narrativa de "mudança de regime". Durante anos, a crítica a Orbán era que ele concentrou poder demais, que moldou instituições para servi-lo, que transformou o Estado em extensão de seu partido. Tudo isso pode ser verdadeiro. Mas a solução que os húngaros escolheram foi dar a outro partido a mesma concentração de poder que tornava o primeiro intolerável. Uma maioria de dois terços não fiscaliza o executivo, ela o absorve. Magyar não precisará negociar com ninguém. Terá maioria para reformar a Constituição, indicar tribunais, rever leis eleitorais. A única diferença entre ele e Orbán, por enquanto, é o calendário. Daqui a cinco anos, saberemos se a diferença era de caráter ou apenas de posição.
Há algo que merece respeito no voto húngaro deste domingo. Um povo que comparece em massa às urnas, sem coerção, e muda pacificamente de governo está exercendo exatamente o que deveria exercer. O consentimento dos governados é a única fonte legítima do poder político, e a Hungria o demonstrou com 80% de participação. O voto foi genuíno, o mandato é real, e Orbán foi derrotado pelas mesmas regras que ele usou para vencer repetidas vezes. Isso tem valor. Só não confunda o processo com o resultado, e o resultado com a liberdade. Votar é necessário, mas nunca suficiente. O que importa, agora, é o que Magyar fará com a ferramenta que o povo acabou de colocar em suas mãos.
Toda geração produz o seu libertador que, chegando ao poder, descobre que as correntes do povo anterior eram incômodas para o povo anterior, mas são muito úteis para quem governa agora. Magyar pode ser a exceção. Oxalá seja. Mas a exceção prova a regra, e a regra é que o Estado não encolhe voluntariamente, os dois terços não se dissolvem por gentileza, e os 90 bilhões de euros de Bruxelas não chegam sem arame. A Hungria trocou de governo. Se trocou de destino, isso só o tempo dirá, e o tempo é implacável com otimismos prematuros.
Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz. ```