Viktor Orbán acaba de conceder a derrota mais humilhante da sua carreira, que não é curta: quinze anos como o premier mais longevo da União Europeia, tempo suficiente para redesenhar a constituição, capturar o judiciário, amordaçar a mídia e construir uma rede de negócios que transformou aliados de partido em bilionários. O partido Tisza, de Péter Magyar, caminha para uma supermaioria de dois terços no parlamento húngaro, o que significa que o instrumento que Orbán forjou para se perpetuar, a supermaioria constituinte, será agora usado exatamente contra ele. E Magyar, convém lembrar, foi durante anos membro da estrutura íntima do orbánismo, ex-marido da própria ministra da Justiça, alguém que comeu à mesa do poder antes de decidir derrubá-la. Há uma simetria quase grega nisso.

Quer dizer, o homem foi eleito em 2010 prometendo varrer a corrupção socialista, e usou os primeiros dois terços para reescrever as regras do jogo de um modo que garantia que nunca mais precisaria se preocupar muito com a oposição. Fez o que fazem os reformadores que chegam ao poder convictos de que a causa justifica os métodos: primeiro você dobra a instituição para servir ao propósito, depois a instituição e o propósito viram a mesma coisa, e por fim você e o Estado viram a mesma coisa. Quando chega essa fase, qualquer crítica ao seu governo vira traição ao país. É um trajeto antigo, e a história está cheia de homens que o percorreram com absoluta convicção de que eram a exceção.

Me diz uma coisa: quando um premier que acumulou tanto poder começa a perder, o que perdeu primeiro? A resposta quase sempre é a capacidade de distinguir entre seus interesses privados e o interesse público. Integrantes do círculo familiar e político de Orbán acumularam fortunas em contratos públicos bancados com dinheiro europeu. A mídia independente húngara foi sistematicamente comprada ou destruída. As investigações não são segredo para ninguém na Europa Central, e o escândalo que efetivamente detonou a ascensão de Magyar envolveu o acobertamento de um pedófilo com conexões diretas ao governo. Não estamos falando de um governante que se corrompeu de repente: estamos falando do processo lento pelo qual um dissidente liberal dos anos 1980 foi se tornando, passo a passo, o tipo de coisa que combatia. A traição não foi ideológica. Foi de caráter.

Olha, seria fácil celebrar aqui a queda de um autoritário e abraçar Magyar como o libertador da Hungria. Mas antes de derrubar uma cerca, convém perguntar por que ela foi construída. Magyar tem simpatias declaradas com Bruxelas, com o projeto de integração europeia mais profunda e com as agendas que Orbán passou anos bloqueando. A pergunta que nenhum jornalista entusiasmado está fazendo é simples: quem paga a conta? Revoluções não são gratuitas. Campanhas que chegam a dois terços de supermaioria em tempo recorde, contra um governo com controle de mídia e máquina estatal, exigem recursos e organização que não surgem espontaneamente do descontentamento popular. Alguém quer muito a Hungria de volta no colo de Bruxelas, e esse alguém não está se apresentando.

O que não significa que Orbán não mereça perder. Merece, e com juros. Mas há uma diferença entre um povo que se liberta de um tirano e um povo que troca um tutor por outro com barra mais bonita. Se Magyar usar esses dois terços para desfazer as proteções contra a imigração em massa, para subordinar novamente o judiciário a uma burocracia supranacional e para abrir o país às mesmas receitas que empobrecem a periferia europeia desde 2008, então os húngaros não ganharam liberdade. Ganharam um novo administrador. O tamanho de qualquer supermaioria deve ser observado com a mesma cautela independentemente de quem a carrega: poder demais na mão de qualquer um é sempre, sem exceção, um problema.

O que a Hungria prova, acima de tudo, é que nenhum homem escapa do desgaste do tempo quando os mecanismos de prestação de contas foram desmontados por ele mesmo. Quinze anos é tempo demais para qualquer governo que não se renova, não presta contas e não suporta questionamento. Os freios institucionais não existem para atrapalhar governos competentes: existem porque a natureza humana, colocada em posição de poder sem limite, caminha invariavelmente na mesma direção. Orbán desmontou os freios e achou que seria a exceção. Não foi. Não é. Não haverá exceção. O próximo que chegar prometendo ser diferente de todos os outros faria bem em anotar isso antes de começar a trabalhar.

Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.