Um homem que governou a Hungria por dezesseis anos consecutivos, construiu um aparato de poder sem precedentes na União Europeia, cooptou a mídia, distribuiu contratos bilionários para aliados pessoais e reescreveu a constituição três vezes ao seu gosto foi finalmente derrubado nas urnas, no domingo, 12 de abril de 2026. Viktor Orbán, o premier mais longevo da Europa comunitária, admitiu a derrota com a palavra "dolorosa" nos lábios e saiu de cena. A vitória da oposição foi de tal magnitude que garantiu dois terços do parlamento, o quórum exato para alterar qualquer artigo da constituição húngara. Irônico, considerando que foi precisamente esse quórum que Orbán usou, por anos, para redesenhar o país à sua imagem e semelhança.
Antes de qualquer comemoração, vale entender quem é o vitorioso. Péter Magyar não é um liberal que surgiu do nada para contestar o poder; é um ex-integrante do próprio sistema que ajudou a construir. Trabalhou como diplomata no Ministério das Relações Exteriores, gerenciou o Banco Húngaro de Desenvolvimento, e sua ex-esposa ocupou cargo de ministra no governo Fidesz. Em 2024, brigou com o regime, subiu nos palanques, e em dois anos virou primeiro-ministro. Que ninguém confunda traição interna com conversão ideológica. O homem conhece os corredores do palácio porque dormiu lá. Sabe onde os esqueletos estão enterrados porque alguns foram enterrados com sua assinatura.
O diagnóstico econômico do país que Magyar herda é severo. A Hungria acumula três anos consecutivos de estagnação, custo de vida nas alturas e o título, conferido pela Transparência Internacional, de país mais corrupto da União Europeia, com treze anos seguidos de queda no índice de percepção da corrupção, mérito exclusivo do regime que acaba de sair. A União Europeia bloqueou aproximadamente 17 bilhões de euros em fundos húngaros por violações ao Estado de Direito. E, ao mesmo tempo, parte do dinheiro europeu que efetivamente entrou no país ajudou a financiar a própria oligarquia do regime. Rotatórias em estradas que não levam a lugar nenhum. Contratos de obras públicas concentrados em empresas ligadas a um único oligarca que passou de patrimônio modesto a bilhões em uma década. Seguiu o dinheiro, e ele levava a um único endereço.
Magyar promete desbloquear esses fundos europeus, combater a corrupção e tributar os mais ricos. O programa soa bem em palanque e vai soar melhor ainda em Bruxelas, que há anos quer um interlocutor mais dócil em Budapeste. O ponto que ninguém discute abertamente é o seguinte: a Hungria vai substituir um governo que usava o Estado para enriquecer aliados por um governo que usará o Estado para obedecer à burocracia europeia. A pergunta que o cidadão húngaro deveria fazer não é se Orbán merecia cair. Merecia. A pergunta é se o próximo capítulo representa liberdade ou apenas outra forma de tutela, desta vez com bandeira azul e estrelas amarelas.
Existe um padrão histórico nesse tipo de alternância que as manchetes de vitória não costumam mencionar. Regimes que se sustentaram por muito tempo sobre pilares de corrupção, concentração de mídia e cooptação institucional não desaparecem quando seu líder perde uma eleição; eles se reorganizam. Os oligarcas ainda têm o dinheiro. Os juízes indicados ainda têm os cargos. Os empresários do regime ainda têm os contratos. Magyar vai precisar, nos primeiros meses, decidir se realmente desmonta a estrutura ou se apenas renegocia quem fica com o quê. Até lá, o discurso de "libertação" merece ser lido com a cautela de quem já viu filhos de regime virarem salvadores da pátria.
O que caiu domingo na Hungria foi um homem e seu partido. O que veio no lugar ainda precisa provar que é mais do que a versão pró-Bruxelas do mesmo arranjo de sempre. Trocar o sultão pelo burocrata europeu não é exatamente o que os manifestantes nas ruas de Budapeste imaginavam quando acenavam com a bandeira da liberdade. O povo húngaro votou, e votou com força. Agora vem a parte difícil: descobrir se o que ganhou é mesmo o que parecia ser nas urnas.
Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.